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Adolescentes e tecnologia: como manter essa relação saudável?

Nathan Vieira

Você que tem um adolescente na família, já parou para pensar no impacto que a tecnologia tem gerado no público mais jovem e o quão importante é tomar alguns cuidados? De acordo com uma pesquisa feita pela Pew Research Center (PRC) dos Estados Unidos, 54% dos adolescentes entre 13 e 17 anos acreditam que passam tempo demais no celular. Em média, a maioria das meninas alegou gastar muito tempo nas redes sociais, enquanto os meninos atribuem as excedentes horas aos jogos. O estudo também aponta que checar as notificações e mensagens é a primeira coisa que 45% dos adolescentes fazem assim que acordam, ainda na cama. Mais de 30% deles dizem que perdem o foco na aula porque se distraem com seus telefones e cerca de metade das meninas (49%) dessa idade relatam se sentir ansiosas sem o aparelho por perto.

Além disso, a Positivo Tecnologia, o Portal Educacional, a Katru Assessoria em Informação e o psiquiatra Jairo Bouer divulgaram um estudo chamado Tecnologia e o Jovem, que aponta que mais da metade dos jovens brasileiros exagera às vezes ou sempre no uso de tecnologias, e isso impacta a saúde mental. A análise aponta que os adolescentes que ficam conectados mais de nove horas por dia têm risco 2,4 vezes maior de sentir tristeza, ansiedade, angústia e estresse. Ao todo, 3.305 alunos de 53 escolas (41 privadas e 12 públicas) de todas as regiões do país foram entrevistados por meio de um questionário online, ao longo de quatro meses (de maio a agosto de 2019). Dentre os participantes desse estudo, 35% já sentiram tristeza ou medo por comentários postados em seus perfis e mais da metade já se sentiu desprestigiada nas redes; pouco mais de 18% já chegou a ser vítima de cyberbullying.

“Não há uma recomendação científica para que adolescentes (de 10 a 24 anos de idade) usem ou deixem de usar celulares e redes sociais, mas se o fizerem, que seja de forma cautelosa e ponderada”, afirma a Dra. Maíra Pieri Ribeiro, hebiatra da Faculdade São Leopoldo Mandic. A hebiatria é uma subespecialidade da pediatria que engloba a saúde integral dos jovens e adolescentes de 10 a 24 anos de idade. O profissional acompanha não só a parte médica, como psicológica e social, orientando sobre comportamentos de risco e diagnosticando precocemente o bullying, vícios, entre outros.

Sem exageros

O consenso entre os profissionais é que os adolescentes não devem utilizar da tecnologia de maneira exagerada e abusiva, pois isso pode gerar consequências

As questões envolvendo os adolescentes são diferentes dos pequeninos usando a tecnologia, como já abordamos aqui no Canaltech. Dra. Maíra destaca que o uso exagerado pode ser um meio de fuga dos problemas, dependência ou inclusive um meio de se sentir aceito pelo grupo. “O abuso diário das mídias sociais e das tecnologias tem efeito negativo na saúde de todas as crianças, pré-adolescentes e adolescentes, que se tornam mais propensos a ansiedade, depressão e outros problemas psicológicos, além de deixá-los mais suscetíveis a problemas de saúde no futuro”, afirma.

Por sua vez, Luciana Brites, psicopedagoga co-fundadora o Instituto NeuroSaber, também acredita que o segredo é não abusar: “Seja em relação ao tempo ou horário de uso do computador ou do videogame, estabelecer limites por meio da conversa é uma boa dica para que seu filho aceite as regras e sinta que suas necessidades também foram atendidas”.

A recomendação da hebiatra é que o tempo de uso diário de tecnologias deve ser limitado e proporcional às idades e às etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicossocial das crianças e adolescentes. De acordo com ela, para jovens e adolescentes não há um número de horas determinado para ficarem no celular, porém eles devem usá-lo de forma ponderada, sem exageros e sem que atrapalhe sua vida escolar e social. “Tudo o que é exagerado está muito próximo dos motivos que levam ao uso de drogas. Também os pais devem ficar atentos, pois muitos filhos só copiam aquilo que veem os pais fazendo”, salienta.

Outra coisa que a hebiatra aponta é que o uso precoce e de longa duração de jogos online, redes sociais ou diversos aplicativos com filmes e vídeos na Internet pode causar dificuldades de socialização e conexão com outras pessoas e dificuldades escolares. Já a dependência ou o uso problemático e interativo das mídias causa problemas mentais, aumento da ansiedade, violência, cyberbullying, transtornos de sono e alimentação, sedentarismo, problemas auditivos por uso de headphones, problemas visuais, problemas posturais e lesões de esforço repetitivo (LER); problemas que envolvem a sexualidade, como maior vulnerabilidade ao groominge sexting, incluindo pornografia, acesso facilitado às redes de pedofilia e exploração sexual online; compra e uso de drogas, pensamentos ou gestos de autoagressão e suicídio; além das “brincadeiras” ou “desafios” online que podem ocasionar consequências graves e até coma por anóxia cerebral e morte.

Controle parental e diálogo

De acordo com os especialistas, a aproximação e o diálogo são a chave para impôr os limites no uso da tecnologia dos filhos adolescentes

O estudo Tecnologia e o Jovem mostra que 65% das escolas trabalham os riscos do uso de tecnologias, e conclui que controles externos (parentais, ou ainda controles da escola) podem ser "protetores", principalmente para os mais novos. Controlar o tempo de conexão ou senha do filho diminui o tempo de exposição e impacta menos no emocional. No estudo, os pais têm a senha de acesso do celular de quase 40% dos jovens e cerca de 25% dos jovens têm seu tempo de conexão controlado pelos responsáveis. Mas quais são as nuances desse controle por parte dos pais?

"Nesta fase da vida, o maior risco de não impor limites aos adolescentes em relação à tecnologia é que ela pode facilmente substituir o contato pessoal e o convívio familiar. Por isso, é importante exercer estabelecer limites amigáveis por meio de uma conversa aberta e sincera, com regras definidas em comum acordo", aponta a psicopedagoga. Segundo Luciana, o diálogo é e sempre será a melhor via para qualquer instrução, pois da mesma forma que os pais conversam com os filhos sobre os riscos comuns que existem no mundo real, eles também devem orientá-los em relação ao mundo virtual. "O diálogo sobre o uso seguro da internet, abordando com clareza a questão da exposição da privacidade nas redes sociais, é sempre o melhor caminho para se construir uma relação de confiança entre pais e filhos", aponta a profissional.

A psicopedagoga acrescenta que a fase transicional em que os filhos deixam de se enxergar crianças e começam a adquirir independência é propensa ao surgimento de novas vontades, novas maneiras de falar, de se vestir, enfim, é o período da vida em que os filhos priorizam muito as amizades, por isso tendem a se afastar dos pais. Uma forma de se aproximar é descobrir os novos interesses do filho e se interessar por eles. Também é importante respeitar seu espaço e evitar trata-lo como se ainda fosse uma criança: isso gerará confiança e o fará enxerga-lo como amigo, mas é importante construir uma relação amigável sem deixar de exercer a autoridade paterna, dizendo "não" quando for necessário e "sim" quando possível. "Por ser uma fase onde a intimidade é priorizada, é importante respeitá-la para não criar indisposição e prejudicar a relação entre pais e filhos. Além de estabelecer regras conjuntamente em relação limite diário de uso, uma boa forma de controlar o conteúdo que seu filho tem acesso sem invadir a sua privacidade é colocar o computador em um lugar comum onde todos os membros da família transitem", orienta.

Sob o ponto de vista de um pai

Publicitário conta os segredos para impôr os limites de uso da tecnologia em sua casa e os cuidados para que os filhos não sofram com os perigos da internet

Celso Fortes, publicitário e especialista em tecnologia da informação, conta que sua filha mais velha possui um celular próprio desde os 11 anos, e crê que o presente foi dado no momento certo. Segundo ele, foi uma questão de segurança, para que ela tivesse uma forma de se comunicar com a família, e era também uma maneira de entretenimento e estudo, já que ela poderia ter acesso às informações. Ele conta que, a princípio, não havia muitas regras, mas mesmo assim havia cuidados: "A partir do momento que ela ganhou o celular, foi livre para poder gerenciar o tempo dela e aprender a separar as coisas. Tenho que ficar atento a que tipo de conteúdo ela recebe, se acessa informações pertinentes à idade dela, se o conteúdo é de relevância para o crescimento dela". No entanto, quando o assunto é escola, regras mais rígidas aparecem: "Durante o horário de colégio é proibido usar o celular. É claro que as crianças acabam utilizando no recreio, mas, na escola, é proibido durante a aula. Meu método é conversar com ela e tentar acompanhar o comportamento dela para identificar se está cumprindo tudo conforme o combinado na escola".

Celso defende que o segredo para uma boa relação com os filhos é uma capacidade de conversa muito clara e aberta entre a família, porque se você conseguir manter um diálogo transparente, aberto, com uma comunicação de mão dupla com seu filho, você acaba podendo ajudá-lo de uma certa forma e também aprendendo muito com ele. "Se você estiver bem próximo dele, maior será a sua capacidade de identificar problemas com rapidez e ver se há algo de errado ou não", afirma o publicitário.

O pai defende, ainda, que tanto nas redes sociais quanto no cuidado com o uso do celular, a preocupação com a educação e a informação se prolonga. "Antigamente você educava e alertava seu filho só para os perigos dentro de casa, os perigos de fogo, de utensílios domésticos, de cair brincando e se machucar, cair de bicicleta. Hoje em dia você acaba acrescentando mais esse item que é a internet. Com o celular, nós mostramos quais são os riscos, fazendo alertas e até mesmo criando alguns meios de bloqueio nas redes sociais para que eles, por exemplo, não aceitem ser seguidos por ninguém que eles não conhecem", relata. O publicitário acrescenta que seus filhos devem seguir perfis que são pertinentes à idade que eles têm, e que a internet, o celular e as demais plataformas digitais se tornaram mais um item a ser colocado em debate com seu filho. "É algo a ser trazido para o dia a dia, como um meio de educá-los. Isso já faz parte dos alertas que qualquer pai ou mãe dão para o seu filho desde o nascimento. Você vai alertando, instruindo e ensinando. O mundo digital é só mais um item dessa educação tradicional", aponta.

Fonte: Canaltech

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