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Activision Blizzard escondeu denúncias de assédio por 20 anos

·4 minuto de leitura

Uma fraternidade universitária com um clima tóxico que mais parece ter saído de um filme como American Pie. Foi assim que empregados da Activision Blizzard descreveram a cultura que tomou conta da empresa nas últimas duas décadas.

Uma reportagem do site Upcomer ouviu cerca de 10 funcionários e ex-funcionários da Activision Blizzard, que indicaram a existência de uma cultura de executivos de alto escalão que supostamente abusaram de outros trabalhadores com pouca ou nenhuma punição interna.

Muitas dessas histórias de agressão e assédio sexual que ocorreram na empresa dona de franquias como Call of Duty, Overwatch e World of Warcraft tornaram-se públicas nas últimas semanas, graças a uma investigação conduzida pelo Departamento de Trabalho e Moradia Justa da Califórnia (DFEH) que virou uma denúncia ao tribunal do estado norte-americano em 21 de julho de 2021.

Tratamento desigual

Os funcionários ouvidos disseram que a cultura tóxica que tomou conta da empresa é, em parte, responsabilidade dos fundadores da Blizzard, Mike Morhaime e Frank Pearce.

De acordo com uma fonte, Pearce, que deixou a Blizzard em 2019, namorou, se casou e se divorciou com várias funcionárias durante seu tempo na empresa. Já Morhaime era conhecido por contratar pessoas que se encaixavam em um perfil de “garoto de fraternidade”.

O ex-diretor criativo de World of Warcraft, Alex Afrasiabi (no centro, de preto) junto com outros executivos e devs na chamada "suíte Cosby", quarto de hotel que virou espaço para festas e, agora, símbolo das acusações de abuso movidas contra a Activision Blizzard (Imagem: Reprodução/Kotaku)
O ex-diretor criativo de World of Warcraft, Alex Afrasiabi (no centro, de preto) junto com outros executivos e devs na chamada "suíte Cosby", quarto de hotel que virou espaço para festas e, agora, símbolo das acusações de abuso movidas contra a Activision Blizzard (Imagem: Reprodução/Kotaku)

O perfil se atrelava a homens que mantinham comportamento desrespeitoso principalmente com as mulheres, cerca de 20% de toda a empresa. De acordo com DFEH, não faltam relatos de toques inapropriados, falas constrangedoras e a prática de salários desiguais para mulheres, especialmente pretas.

Uma fonte descreveu mulheres pretas como "alvos particularmente vulneráveis" de discriminação no local de trabalho. Embora a Blizzard tenha eventualmente começado a contratar mais candidatos não brancos, funcionários relataram que boa parte destes empregados deixaram a empresa com menos de um ano.

Uma ex-funcionária disse que, quando ingressou na empresa, uma das primeiras perguntas que recebeu foi: “Você ao menos joga algum jogo?”. O comentário foi recebido com risos dos homens presentes.

“Já vi histórias de todos os setores com os quais trabalhei”, disse um funcionário anônimo da Blizzard. “Eu não acho que seja sobre indivíduos. Existe um sistema que permite esse tipo de caso por mais 20 anos”, completou.

Campanha pró-LGBTQIA+ barrada

Em meados de 2011, quando as taxas de suicídio de jovens LGBTQIA+ estavam crescentes nos Estados Unidos, um pequeno grupo de funcionários da desenvolvedora procurou Mike Morhaime com a ideia de produzir uma série de vídeos em apoio as causas da comunidade LGBTQIA+.

“Não fazemos declarações políticas”, respondeu Morhaime.

Os funcionários questionaram o que havia de político na prevenção do suicídio de adolescentes. Morhaime reiterou a resposta declarando que a Blizzard tinha coisas mais importantes a fazer do que vídeos, como trabalhar em seus projetos.

No mesmo ano, em 2011, a desenvolvedora contratou o vocalista de Death Metal George Fisher, conhecido por falas homofóbicas, para se apresentar na Blizzcon daquele ano.

Fisher foi introduzido no evento com um vídeo em que usava falas homofóbicas para criticar jogadores da Alliance de World of Warcraft. “Morram, seus chupadores de ***”, disse Fisher em uma das passagens do vídeo.

Sem resposta do RH

Muitas das denúncias de assédio e desrespeito que se tornaram públicas nas últimas semanas, eram conhecidas pelo setor de Recursos Humanos da Blizzard, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem.

Brissia Jiménez, que se juntou à desenvolvedora em 2013, compartilhou um relato em que diz ter procurado por funcionárias mulheres do RH após ser vítima de comportamento inapropriado de um colega. A resposta obtida foi de que Jiménez talvez estivesse “muito emocionada”.

Jesse Meschuk, ex-chefe global do RH. O setor foi acusado de ser conivente com denúncias de assédio sexual (Foto: Reprodução/Redes sociais/Jesse Meschuk)
Jesse Meschuk, ex-chefe global do RH. O setor foi acusado de ser conivente com denúncias de assédio sexual (Foto: Reprodução/Redes sociais/Jesse Meschuk)

“Quatro mulheres. Quatro pessoas do meu gênero que deveriam estar ali para ajudar não deram qualquer resposta”, disse.

Em alguns casos, o RH permitiu que homens que supostamente abusaram sexualmente de suas colegas de trabalho, continuassem trabalhando por semanas após o registro da denúncia.

Cher Scarlett, que trabalhou na Blizzard como engenheira de software, disse que, em muitos casos, as reclamações de assédio eram resolvidas simplesmente transferindo o acusador ou o acusado para uma equipe diferente.

Como resultado do processo contra Activision Blizzard, o vice-presidente sênior de RH, Jesse Meschuk, deixou recentemente a empresa.

Fonte: Canaltech

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