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“Achei que eu nem ia sair respirando dali”, diz manifestante que enfrentou bolsonaristas

Emerson Osasco se tornou símbolo de manifestação. Foto: Annelize Tozetto

Desde o último dia 31, o programador de softwares Emerson Márcio Vitalino, conhecido como Emerson Osasco, de 35 anos, ganhou uma notoriedade que não esperava. Ele ficou conhecido e acabou se tornando um símbolo da luta pela democracia e antirracista no Brasil ao enfrentar alguns bolsonaristas que carregavam uma bandeira com um símbolo fascista.

Naquele domingo, o rosto de Emerson estampou várias matérias de portais que noticiaram as manifestações contra o presidente e pró-Bolsonaro que aconteciam na avenida Paulista, em São Paulo. Em várias fotos e vídeos que circularam pela internet, era possível ver o manifestante com o braço erguido e semblante sereno enquanto era xingado por bolsonaristas.

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“Eu só estava esperando acontecer o pior. Achei que eu nem ia sair respirando dali. Além daquelas pessoas que estavam por trás de mim, tinha uma imensa galera na minha frente. Eu tive medo, mas eu não tinha como ter outra reação. De repente, eu até fiquei imóvel esperando o pior”, revela em entrevista ao Yahoo.

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No entanto, ele diz que não conseguiu passar pelo local sem chamar a atenção de alguns jornalistas que estavam no local para a exaltação de um símbolo nazista. “Eu me deparei com um cara lá fazendo live, dando risada, fazendo selfie e expondo com orgulho aquela bandeira que é um símbolo nazista da Ucrânia. Aquilo, para mim, foi o estopim de muita coisa que vem acontecendo”, explica.

Leia a entrevista completa:

Yahoo: Me conte um pouco sobre o dia da manifestação. Como você ficou sabendo dela? Estava com amigos ou sozinho? Por qual motivo achou importante ir mesmo em meio a uma pandemia?

Emerson Márcio Vitalino: Eu faço parte de um grupo de corinthianos politizados e que já não estavam aguentando o tanto de insanidade que estava acontecendo no nosso País: profissionais de saúde sendo agredidos, buzinaços em frente a hospital, presidente desdenhando da morte das pessoas… e a gente vendo um monte de amigo e familiares morrendo por causa do Covid-19. E o presidente brincando, falando que era messias, mas que não fazia milagre. 

Isso foi o estopim pra gente. A gente decidiu dar um basta. Nos organizamos, trouxemos mais adeptos, mais amigos corinthianos para esse grupo e decidimos ir às ruas. Sim, nós sabemos que o Covid-19 é muito perigoso, mas o vírus de uma possível ditadura é mais letal ainda. Ele vai querer nossa liberdade, vai querer caçar e eliminar qualquer pessoa que pense diferente. 

Yahoo: Como estava o clima lá antes de você sofrer as agressões verbais dos bolsonaristas? Estava tudo bem? Teve algo que foi o estopim para aquela atitude deles?

Emerson: O clima estava tranquilo. Eu estava com um amigo, que é vegano, e ele estava com fome naquele momento. Mas a gente está no meio de uma pandemia, com a grande maioria dos comércios fechados… agora imagina achar um restaurante que vende alguma comida vegana? Complicado. Aí a gente estava em frente ao Masp. Aí ele deu um Google lá e em 15 minutos ele achou um lugar. Só que passava por dentro da manifestação da galera contrária. 

A gente decidiu ir só eu e ele. Passamos por lá, eles ficaram olhando feio pra gente e xingando. Mas, enfim, seguimos. Quando chegamos no restaurante lá, estava fechado e a gente decidiu voltar. Aí, quando a gente voltou, eu me deparei com um cara lá fazendo live, dando risada, fazendo selfie e expondo com orgulho aquela bandeira que é um símbolo nazista da Ucrânia, que exalta um partido fascista, que apoia o nazismo. Então, aquilo, para mim, foi o estopim de muita coisa que vem acontecendo.

Yahoo: Por qual motivo acha que eles selecionaram você no meio da multidão para agredir?

Emerson: Na realidade, eles não me selecionaram. Eles tentaram me calar. Quando eu vi que eles estavam fazendo isso, eu automaticamente vi um grupo de jornalistas e denunciei para eles. Eu falei: “Cara, olha isso. Em plena avenida Paulista, essa galera exaltando uma bandeira de nazistas ucranianos”. O Brasil é um país de maioria de nordestinos e descendentes de negros e negras, que são descendentes de índios e índias. Então, é impossível que aqui no Brasil a gente aceitasse isso. Então, eles não me escolheram. Eles vieram para cima de mim tentando me silenciar.

Yahoo: Nas imagens que temos de você na manifestação, é possível ver que você se manteve sereno em uma situação em que muitas pessoas perderiam a cabeça. O que fez você manter a serenidade?

Emerson: Na realidade, ali eu tinha uma obrigação. Não era mais o Emerson que estava ali. Era alguém que representava algo maior, que precisava mostrar para toda a população brasileira quem são aquelas pessoas e o que elas querem fazer no nosso País. Se eu tivesse perdido a cabeça ali, automaticamente, eu não seria melhor do que elas. Eu estaria no mesmo patamar de imbecilidade e nervosismo que elas. Então, era necessário eu ter uma atitude diferente. Mostrar para o mundo que essas pessoas não podem ter espaço no nosso País.

Yahoo: Por qual motivo você fez questão de se posicionar com firmeza naquele momento? Não sentiu medo?

Emerson: Na realidade, foi um conjunto de fatores. As pessoas que já foram assassinadas, o que elas têm em comum? Elas eram negras e periféricas. E seus assassinos sequer foram processados. Então, é um conjunto de coisas. Estamos vendo, todos os dias, negros e negras, crianças e idosos serem assassinados pelo braço do Estado e ninguém faz nada, não acontece nada. Quando eu vi aqueles caras exaltando aquela bandeira com um sorriso no rosto, como se aquilo fosse algo para se orgulhar, foi o estopim de tudo. Eu tive que me posicionar. Ou eu fazia aquilo, ou eles iriam outro dia continuar da mesma forma. 

Todo mundo sente medo. Mas, no momento, eu me fingi de surdo para não ouvir nada do que eles estavam falando, mas eu ouvi praticamente tudo. Eu só estava esperando acontecer o pior. Achei que eu nem ia sair respirando dali. Além daquelas pessoas que estavam por trás de mim, tinha uma imensa galera na minha frente. Quando meu colega puxou o meu braço e me tirou dali, eu fui andando e a galera foi me xingando. Eu tive medo, mas eu não tinha como ter outra reação. De repente, eu até fiquei imóvel esperando o pior.

Yahoo: Como foi depois que você chegou em casa naquele dia e viu que você tinha se tornado um símbolo, que tinham sido feitas artes em sua homenagem? Como foi isso pra você? E como está sendo agora?

Emerson: Eu cheguei em casa tarde. A gente estava em um grupo de amigos, né? E a gente pegou trem, metrô e ônibus até chegar em casa. Então, eu fui chegar em casa e já estava tarde e meu celular estava com pouca bateria. E quando eu olhei [o celular] eu vi um monte de mensagem, uma galera perguntando se eu estava bem, como que eu estava. Tinha algumas ligações perdidas também… só que eu não entendia. Até que um colega meu me mandou um link de um vídeo perguntando se eu estava bem. Aí foi quando eu vi. Até então, eu só tinha ouvido, mas não tinha o visual de tudo o que tinha acontecido. 

Aí, quando eu vi o vídeo daquela galera lá, uma galera que eu senti que me chutou, que cuspiu em mim, que me deu soco… cara... eu chorei de raiva pela impotência de ver que o Estado estava ali, vendo tudo aquilo e não se posicionou. E, a gente, como cidadão comum, teve que fazer o que o Estado tinha que fazer. Aquilo me revoltou muito e eu fiquei mal a noite inteira por causa daquilo. Aí eu fiz questão de postar esse vídeo, mas eu jamais imaginaria que iria dar a repercussão que deu. Nesse dia, eu fui dormir praticamente arrasado. No outro dia, eu acordei mal pra caramba. E, durante o dia, de tanta mensagem, que até agora eu não consegui responder todas, foi dando um ânimo. Eu fui recuperando as energias. 

Essa galera é do mal, essa galera não tem dó. Eles querem fazer de tudo para humilhar, para deixar a pessoa pra baixo. Então, se você não tem essas pessoas maravilhosas que mandaram mensagens, você fica mal. Mas você vê o tanto de pessoas boas que ainda existem e é por isso que eu ainda acredito na humanidade. A quantidade de pessoas boas é bem maior do que a quantidade de pessoas más. Elas tentam gritar alto para as pessoas acharem que elas são muitas, mas, na realidade, elas não são quase nada.

Yahoo: O que representa para você a luta pela democracia? Qual a importância dela?

Emerson: Na realidade, toda a minha história em meio à democracia, uma boa parte dela é tratada também sobre a questão de lutar contra a ditadura. Nós temos exemplos dentro da torcida da qual eu faço parte onde ela nasceu no meio de uma ditadura e combateu a ditadura que o nosso País passava. Na nossa raiz, é muito forte essa questão da luta pela democracia e pela liberdade. Muitas pessoas pagaram com sangue para hoje nós termos liberdade. Nós não podemos jogar isso fora. A democracia é o único meio de a gente viver da forma que queremos, sem a gente perder o mínimo de liberdade possível. Tem muitas coisas que podem melhorar? Com certeza. Mas a gente só consegue melhorar com democracia. Mesmo com democracia, muitos negros morrem. Agora, imagina em uma ditadura?

Yahoo: Vi que você usava uma camiseta do Malcom X no dia da manifestação. Qual a importância dessa liderança na sua vida? Quais ensinamentos ele te trouxe?

Emerson: Eu me identifico com o Malcom X por duas características dele: quando jovem, ele era um cara mais ativo, mais explosivo, que não entendia o motivo de o mundo ser daquele jeito e queria respostas. Ele queria mudar o mundo de uma vez só e, depois, teve a segunda personalidade dele, quando ele entendeu que era necessário o processo para levar conhecimento ao povo, que não adiantava a gente querer revolução, sem a galera saber escrever, pelo menos, o próprio nome, sem o povo estar organizado. 

Eu me coloco muito familiarizado com ele. Quando eu era mais novo, eu não entendia o motivo de um cara dormir na rua e outro dormir em um palácio. Isso não fazia sentido na minha vida e eu queria mudar isso de toda forma e eu entendi que, para mudar isso, só através de um processo de informação e organização.

Yahoo: O que você espera daqui pra frente? Acha que as manifestações vão se espalhar pelo País? Acha que é um movimento que vai se fortalecer?

Emerson: Com certeza. Ela vai se fortalecer. Nós criamos um grupo muito forte. O Somos Democracia é um grupo que agora está em todos os Estados, que encabeça todas as manifestações pró-democracia e antirracismo. Nesse domingo agora, a gente conseguiu manifestações em quase todos os Estados do País.

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