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Acadêmicos devem se envolver com políticos, diz ganhador do Prêmio Nobel que estuda pobreza

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ciente de que o número certo de gotas de cloro em uma determinada quantidade de água é um dos métodos mais eficazes para impedir a proliferação de bactérias no líquido, um grupo de pesquisadores fez um experimento na área rural do Quênia: instalar, próximo a poços de vilas, um dispensador da substância que poderia ser usado gratuitamente por quem fosse abastecer suas casas.

Entre todas as medidas testadas no estudo, essa foi a que mais teve sucesso: dois anos após instalar a ferramenta, 61% das casas tinham água com cloro, ante menos de 15% nas do grupo de controle.

A ideia é uma das dezenas descritas em "A Economia dos Pobres: uma nova visão sobre a desigualdade", dos professores de economia do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) Abhijit Banerjee e Esther Duflo. O livro será lançado pela editora Zahar nesta quinta-feira (2).

As páginas estão repletas de estudos randomizados —quando duas ou mais intervenções são testadas aleatoriamente em diferentes grupos— que têm como principal objetivo reduzir a pobreza.

O extenso repertório de pesquisas do gênero dos autores, que são casados, pode ser atribuído ao seu trabalho no J-PAL, ou Laboratório de ação contra a pobreza Abdul Latif Jameel. Desde 2003, eles vêm se dedicando a achar soluções com base em evidências para a situação de escassez de recursos de milhões de pessoas no mundo.

Hoje, o J-PAL conta com 261 professores em universidades de diversos países, dentre eles o Brasil, onde a organização chegou em junho deste ano. A abordagem experimental do grupo rendeu ao casal e ao também colaborador do laboratório Michael Kremer o prêmio Nobel de Economia de 2019.

Nesses quase 20 anos de pesquisa, Banerjee diz ter visto avanços nos estudos de economia do desenvolvimento. “Antes você basicamente tinha essas grandes teorias com poucas evidências”, afirma o economista, em entrevista por videoconferência para a Folha de S.Paulo.

Além da grande quantidade de pesquisas apresentadas, o livro parece acompanhar o raciocínio dos autores, suas dúvidas durante os estudos e os caminhos que os fizeram chegar a determinadas conclusões —ou deixar uma pergunta sem respostas.

O texto inclui histórias com as quais se depararam durante os trabalhos e que explicam que tipo de planejamento financeiro fazem as pessoas que se deparam com escassez de recursos.

O livro se coloca como a antítese do simplismo em políticas e estudos sobre a pobreza. “Esse desejo de reduzir os pobres a um conjunto de clichês é tão antigo quanto a própria natureza”, escrevem os autores. “Tanto na teoria social quanto na literatura, os pobres aparecem como preguiçosos ou empreendedores, nobres ou ladrões, agressivos ou passivos, indefesos ou autossuficientes.”

Banerjee atribui a sua escolha profissional, em parte, à sua origem: a cidade de Calcutá, no leste da Índia. “Imagino que seja um pouco como o Brasil. Eu não era pobre, mas vivia perto de muitas favelas e me perguntava por que as pessoas tinham que viver em tamanha dificuldade. E alguns economistas ignoravam completamente isso”, afirma.

O livro foi escrito em 2011, bem antes de a pandemia reembaralhar as cartas da economia e aprofundar a pobreza. No começo de 2021, logo após o pagamento do auxílio emergencial ser interrompido, o Brasil tinha mais pessoas na miséria em relação ao começo de 2011, há dez anos. Cálculo da FGV Social de janeiro mostrou que 12,8% dos brasileiros estavam vivendo com menos de R$ 246 ao mês (R$ 8,20 ao dia).

A educação também foi afetada pela crise sanitária. No Brasil, o fechamento de escolas públicas em 2020 derrubou em 72,5% o aprendizado esperado e mais que triplicou o risco de evasão escolar, segundo mais de 8 milhões de dados de estudantes da rede estadual paulista.

“Nós já estamos vendo os resultados”, diz Banerjee sobre o longo período em que os estudantes ficaram longe das escolas ao redor do mundo.

“Eu não posso falar sobre o Brasil, mas tenho certeza de que muitas dessas crianças não estão planejando voltar à escola. Os que têm 13, 14, 15 anos estão trabalhando, ajudando as suas mães em seus empregos ou algo do tipo. Vai ser difícil reverter isso, eles já têm uma vida diferente”, afirma.

A educação é um dos campos com mais páginas dedicadas no livro. Um dos estudos descreve um programa de aprendizado com computador na cidade de Vododara, no oeste da Índia. Os alunos participantes deveriam resolver problemas matemáticos em um jogo de computador que se tornava cada vez mais difícil. Os ganhos nas notas de matemática, explicam os autores, foram tão grandes quanto os de bem-sucedidas intervenções educacionais.

Grande parte dos estudos do livro convergem para a seguinte questão: onde há uma armadilha da pobreza e onde não há? Ou seja, quando aumentar a riqueza rapidamente é limitado para os que têm muito pouco para investir, mas aumenta exponencialmente para aqueles que têm renda um pouco maior? Sempre que o potencial de crescimento é rápido para os pobres e diminui à medida que se enriquece, defendem, não há essa armadilha.

Parece simples, mas Banerjee procura deixar claro que fora dos livros as medidas são mais difíceis de implementar.

“Eu acho que é fácil ser cínico sobre políticos, mas eu não sou”, afirma quando questionado sobre a implementação de suas sugestões por governos. “Eles têm um trabalho difícil: A quer que eles façam isso, B, que eles façam aquilo, e C, aquela outra coisa”, explica.

Do seu lado do balcão, o economista defende que a academia se engaje nos conflitos dos gestores públicos. Para ele, isso significa oferecer soluções que tornem as negociações com seus pares mais fáceis e desapegar de soluções perfeitas para se dedicar às possíveis.

"Normalmente nós não dizemos: 'Veja, eu entendo que isso vai parecer difícil de fazer, mas essa é uma maneira de empacotar essas políticas para que elas atendam vários grupos'", exemplifica. "Acho que, enquanto comunidade acadêmica, nós estamos apenas começando a reconhecer a necessidade de um envolvimento de longo prazo com os formuladores de políticas públicas", afirma.

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A ECONOMIA DOS POBRES: UMA NOVA VISÃO SOBRE A DESIGUALDADE

Preço R$ 84,90

Autor Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo

Editora Zahar

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