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Abstenção recorde do Enem aprofunda as fraturas de um país em desalento

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JANUARY 17:  Students protest against brazilian president Jair Bolsonaro and the National High School Exam (ENEM)  at the Rio de Janeiro State University (UERJ) on January 17, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. Despite 15 Brazilian states showing an increase in the number of deaths from Coronavirus (Covid-19), the government maintained the exam and 5.7 million candidates are confirmed.  (Photo by Andre Coelho/Getty Images)
Estudantes protestam no Rio contra realização do Enem em meio à pandemia. Foto: André Coelho (via Getty Images)

Falta de oxigênio, UTIs lotadas, guerra das vacinas e aposta em tratamento precoce/ineficaz. O resultado direto da omissão e da sabotagem das autoridades públicas no decorrer da pandemia do coronavírus é só a ponta de um iceberg que já causou 217 mil mortes no país. Essa é a parte visível da tragédia.

Outra, menos notada e discutida, é a erosão do futuro. Essa conta só agora começa a chegar.

O índice de abstenção da edição deste ano do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, é o estágio avançado de uma tragédia anunciada --e ainda não totalmente dimensionada.

No segundo dia de exame, mais da metade (55,3%) dos candidatos não compareceu aos locais da prova. Nesta década, a pior taxa havia sido registrada em 2017 (34,1%).

Desta vez eram esperados 5,5 milhões de estudantes, mas só 2.470.396 compareceram.

Em seis cidades de três estados, alunos foram impedidos de realizar o exame porque as salas estavam superlotadas. Isso aconteceu em Curitiba e Londrina, no Paraná, em Florianópolis, Santa Catarina, Pelotas, Caxias do Sul e Canoas, no Rio Grande do Sul.

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Havia pressão para que os responsáveis adiassem a realização do Enem deste ano por conta do recrudescimento dos casos de contaminação. Um abaixo assinado eletrônico chegou a reunir quase 400 mil assinaturas com este pedido. Em vão. Apenas o Amazonas e duas cidades de Rondônia tiveram os testes suspensos por causa do agravamento da pandemia.

Segundo o professor da Universidade Federal do ABC Fernando Luiz Cássio Silva, especialista em políticas educacionais e organizador do livro “Educação contra a Barbárie”, a luta agora é para que todos os ausentes possam remarcar e fazer o exame. Para ele, anular o exame, a essa altura, implicaria prejuízo para quem se arriscou e já fez a prova.

À coluna ele explica que o Enem é construído dentro da Teoria da Resposta ao Item (TRI), a mesma usada em outros exames de grande escala, como o PISA. “Vestibular tradicional, como a Fuvest, é exame de média escala. Eles são construídos a partir da Teoria Clássica dos Testes. Já o Enem é composto de itens pré-testados, com dificuldade calibrada. Por isso dá para compor várias provas diferentes e estatisticamente equivalentes.”

Até o começo da semana, o Inep (Instituto Nacional de Ensino e Pesquisas Educacionais) informou ter recebido 18.210 pedidos de reaplicação do exame feitos por alunos que faltaram porque estavam com coronavírus. O prazo para fazer este pedido acaba na sexta-feira, dia 29. Quem teve problemas relacionados a infraestrutura das salas, como falta de luz ou mesmo a superlotação, também pode requerer a reaplicação.

Dificilmente, porém, os mais de 3 milhões de estudantes ausentes farão a nova prova.

Em sua coluna no jornal O Globo desta semana, o jornalista Antônio Gois escreveu que a abstenção recorde da atual edição do Enem é resultado do agravamento de um problema que já existia antes mesmo da pandemia: a desmotivação dos jovens em concluir o ensino médio e tentar uma vaga no ensino superior.

Em 2020, ano marcado pela quarentena e a suspensão das aulas presenciais, o instituto Datafolha apontou que quase 1 em cada 10 estudantes abandonou a escola no período (8,4%). São mais de 4 milhões de alunos, o equivalente à população inteira do Uruguai.

Entre os motivos do abandono estão questões financeiras e falta de acesso a aulas remotas. Em outras palavras: estudar se torna, cada dia mais, um privilégio de poucos.

Distante ainda do horizonte, o mundo pós-Covid, ao menos no Brasil, se revelará ainda mais injusto, brutalizado e desigual. Essa distância começa e termina na educação.