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'Abe' joga espectador em um longo e interminável comercial de margarina

·3 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O jovem nova-iorquino Abe tem vários nomes: Abraham no registro civil, Avraim para os avós maternos, Ibrahim, para os avós paternos. Não por acaso, prefere ser chamado apenas Abe, que por sinal era também o apelido de Lincoln, o presidente, e termina dando nome ao filme de Fernando Grostein Andrade.

Os vários nomes indicam a disputa entre os avós: judeus, os maternos, e palestinos, os paternos. Abe ao que parece vive prensado entre duas famílias que brigam a cada encontro para saber quem é o verdadeiro criador do mundo ou se o falafel é uma invenção palestina que os judeus roubaram ou vice-versa.

Ao mesmo tempo, não se incomoda com a chatice religiosa familiar. Quer agradar a todos. Pretende fazer o bar mitzvah quando chegar aos 13 anos tanto quando quer fazer o jejum do Ramadã. Se continuar nessa toada, passará o ano inteiro entre jejuns e feriados religiosos.

O fato é que Abe não se importa profundamente com a religião. Talvez esteja mais próximo do ateísmo do pai. Mas ele quer ver a todos felizes. E, para tanto, opta por desenvolver aquele que vê como seu grande talento natural: a cozinha.

O encontro com um cozinheiro brasileiro (Seu Jorge) lhe dá a oportunidade de se iniciar nas artes culinárias de maneira mais profissional (e escondido dos pais).

Eis em linhas gerais o argumento de "Abe", que não aspira grandes voos, transpira lugares comuns de religião (de desentendimentos religiosos, entenda-se), o que inclui a mútua intolerância e oferece ao jovem a oportunidade de se satisfazer numa experiência culinária em que várias tradições se cruzam -a brasileira, inclusive e talvez sobretudo.

Tudo poderia credenciar "Abe" a se desenvolver como um filme razoavelmente modesto, didático e voltado a plateias jovens (crianças, de preferência), que poderiam aprender com ele, ao mesmo tempo, as virtudes da tolerância, do amor familiar e da independência.

Nada muito ambicioso, já se pode notar. Mas daí poderia sair algo aceitável, não fosse a opção por fazer, a partir de tal roteiro, um longo (interminável, na verdade) filme publicitário. O que ele anuncia, enumerado acima, é o de menos. O problema é, durante quase 90 minutos, o espectador parece ser jogado dentro do que parece um comercial, daqueles em que pela manhã o papai, a mamãe e os pimpolhos manifestam a felicidade de se encontrar em torno de um pote de margarina.

É quase impossível não ser levado esse referencial quando nos vemos diante da imagem que brilha (literalmente), da cenografia lustrosa, dos adereços a nos lembrar que a única coisa importante no filme, à parte a culinária, são as querelas religiosas.

Esse obstáculo quase intransponível se deixa completar pela atitude dos avôs inimigos. São, por sinal, bons atores: Tom Mardirosian faz o muçulmano, Mark Margolis, o judeu, desperdiçados pela reiteração permanente de sua condição religiosa. Poderiam brigar um pouco pelo jogo de basquete, reclamar do calçamento da cidade, enfim... deixar por um momento de representar o papel social único que o filme lhes destina: o de defensores de uma crença única, verdadeira e inatacável.

É verdade que este filme meio estadounidense, meio brasileiro não vê nenhuma contradição entre esses dois países, ou entre o cozinheiro negro e o jovem branco. Mas deve ter alguma virtude que não chego a vislumbrar, mas que levou Gullane a entrar na produção e Paris Filme na distribuição. Não costumam dar ponto sem nó. Veremos.

ABE

Avaliação: ruim

Quando: estreia na quinta (5)

Onde: nos cinemas

Classificação: 12 anos

Elenco: Noah Schnapp, Seu Jorge, Mark Margolis

Produção: Brasil e EUA, 2019

Direção: Fernando Grostein Andrade

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