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A nova Guerra Fria digital entre EUA e China chegou para ficar

·14 minuto de leitura
China amd USA flag with grey background studio shot
China amd USA flag with grey background studio shot

A relação dos EUA com a China é um dos principais pontos que o presidente eleito Joe Biden terá que resolver na sua gestão, assim como a COVID-19 e o estímulo à economia, que também são temas relacionados à China. A relação EUA-China voltou aos holofotes na última semana e, para mim, continuará assim até o dia da posse.

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O trumpismo tinha como princípio central demonizar e culpar a China pelas dificuldades econômicas e sociais americanas, como as altas taxas de desemprego, os déficits comerciais, o fentanil e, é claro, a pandemia de COVID-19. E adivinha só? Em alguns aspectos, o presidente Donald Trump estava certo, mas ele misturou essas verdades com exageros e mentiras tantas vezes que fragilizou seu próprio argumento e, por isso, deu munição à China.

Resumindo, as relações entre as duas maiores economias do mundo estão bem conturbadas no momento (esta semana, Trump proibiu investimentos em empresas chinesas que, segundo ele, têm relações comerciais com o exército chinês). A pergunta que não quer calar é o que Biden, que, no fim desta semana, foi parabenizado tardiamente pela vitória nas eleições pelo gigante asiático, deve fazer? É preciso recomeçar tudo do zero para saber a resposta exata. Mas como isso aconteceria e com que objetivo?

Uma coisa é certa, a relação dos EUA com a China não será mais a mesma, porque a economia chinesa praticamente já se igualou à americana. Além disso, neste aspecto, os políticos dos dois lados do espectro ideológico concordam que a China joga de acordo com as próprias regras, a despeito dos interesses americanos, e que é preciso confrontá-los (uma das premissas de Trump). O ponto de discordância é como fazer esse enfrentamento.

“Os falcões patrióticos querem ver a ruína da China”, Reid Hoffman, investidor de venture capital e empreendedor do Vale do Silício, me disse esta semana. “Mas a China é uma parte importante da economia global. Se a China ruir, nós seguiremos pelo mesmo caminho. É muito importante construir pontes e, ao mesmo tempo, é claro, competir agressivamente e garantir que a China desempenhe seu papel no mundo de forma justa e correta, pare de fingir ser uma economia emergente e não tenha a possibilidade de roubar IPs. Temos um conjunto coletivo de regras que devemos seguir para que o mundo progrida”.

Alguns pontos dessa afirmação valem a pena destacar, primeiro, com relação ao “conjunto coletivo de regras” de Hoffman. Se Trump foi o grande bilateralista, os observadores de Washington concordam que é quase certo que Biden voltará ao tradicional multilateralismo. Com isso, provavelmente ele trabalhará com a China como parte de um grupo composto por, digamos, aliados da Ásia-Pacífico, como Japão, Austrália e Coreia, talvez com o retorno à Parceria Trans-Pacífico (TPP), da qual os EUA se retiraram em 2017 e a China não faz parte.

Mas o segundo aspecto mais importante que eu realmente quero analisar é a expressão “competir agressivamente” de Hoffman.

Isso mesmo.

Em resumo, o cabo de guerra econômico entre EUA e China será a megatendência geopolítica definitiva da nossa geração. Essa rivalidade (e rivalidade é a palavra perfeita para essa relação) pela hegemonia global se manifestará, principalmente, no campo de batalha virtual, ou seja, no mercado de tecnologia, em grande escala.

Portanto, chegou a hora de dar as boas-vindas à nova Guerra Fria digital.

Tente se lembrar da última vez que os EUA estiveram envolvidos em um cenário bilateral como esse. Foi com a Rússia, durante a Guerra Fria (a original), que começou no dia em que as forças do eixo se renderam, em 1945, e chegou ao fim com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989.

Mas vamos mais à fundo nessa Guerra Fria. O termo "fria", é claro, diz respeito ao fato de que a guerra nunca foi "quente", ou seja, nunca houve batalhas diretas entre americanos e russos, mas essa ideia pode enganar. Ambos os lados gastaram trilhões de dólares em armamento, incluindo arsenais nucleares enormes (fora a corrida espacial), inúmeras operações da KGB e da CIA (leia a respeito do Safari Club, veja a história do filme Air America e leia o livro Operation Valuable Fiend) e houve guerras de "representantes" dos dois opostos em todos os continentes. Tente dizer à família de um dos 58.318 americanos mortos no Vietnã que nunca houve combate na Guerra Fria.

Infelizmente, muitos acreditam que toda essas mortes e gastos não serviram para nada, o que talvez até seja previsível. A União Soviética não foi derrotada por uma ação militar, seja secreta ou não; foi a economia livre do Ocidente, em especial a dos EUA, a responsável pelo triunfo do capitalismo sobre o comunismo.

Quanto a esse próximo confronto, não haverá batalhas e a vitória não virá de armas e balas ou, Deus me livre, ogivas nucleares. O ponto central do embate será qual dos lados dominará os mercados de semicondutores, inteligência artificial, 5G, redes — e a segurança cibernética que protege tudo isso. Certamente, outros países além dos EUA e da China terão seu papel nesse momento histórico, mas, na maioria dos casos, serão na posição de consumidores ou similares, fadados a recorrer às duas potências por esses produtos e serviços essenciais.

Os chineses estão cientes de tudo e, por isso, estão construindo uma política nacional com base nesse pensamento, mas os americanos mais informados também. O problema é que os EUA estão muito menos organizados e coordenados que a China, e um exemplo disso é a turbulenta transição de governo no país.

Esta é a situação nesses dias iniciais da Guerra Fria digital.

Embora o governo Obama não tenha se preocupado tanto com a ameaça da tecnologia chinesa inicialmente (e, sim, os sinais não eram tão claros na época), no seu segundo mandato, o cenário começou a mudar.

Vamos usar a gigante das telecomunicações chinesa Huawei, em guerra declarada com o governo Trump, como estudo de caso.

“As preocupações em torno da Huawei começaram com funcionários da segurança nacional, no governo Obama”, afirma Ho-Fung Hung, professor de economia política na Johns Hopkins e autor do livro “The China Boom: Why China Will Not Rule the World” (O Boom da China: Por que a China não Liderará o Mundo, em tradução livre). “A Casa Branca e o Congresso fizeram uma investigação em 2013 e descobriram que a Huawei era uma grande ameaça à segurança cibernética”.

As desconfianças em relação à empresa ganharam força quando Trump se tornou presidente. A Huawei fabrica vários produtos, mas um em especial chama a atenção, as redes de acesso por rádio (ou RANs), a parte de um sistema de telecomunicação que conecta celulares a redes de sinal por meio de conexões de rádio, incluindo estações-base, antenas, chips e controladores. Além da Huawei, o mercado de RAN (que registra cerca de US$ 76 bilhões em vendas anuais) é dominado por Samsung (coreana), Ericsson (sueca), Nokia (finlandesa) e ZTE (também chinesa e também na mira do governo dos EUA).

No início, o governo Trump começou a contar a aliados europeus que a tecnologia da Huawei trazia um risco à segurança nacional, mas sem evidência contundente. A história recebeu pouco crédito. “A mensagem era 'confiem em nós', mas confiabilidade não é exatamente uma qualidade desse governo”, afirmou uma fonte do mercado. E a fonte continuou: mas e se o teor do argumento fosse econômico? Se a Huawei e a ZTE ganhassem mais mercado, os concorrentes de outros países, que, como todas as empresas nos setores, precisam investir bilhões de dólares em estrutura todo ano, poderiam ser forçados a sair do mercado. “Se isso acontecesse, o resultado inevitável não seria uma total dependência dos chineses?”, a fonte questionou. Esse raciocínio ganhou força em abril, quando europeus reclamaram sobre a qualidade dos EPPs vendidos pela China, que gerou a aparente retaliação chinesa de atrasar as remessas.

“A estratégia inicial de Trump foi assustar e ameaçar aliados americanos, como Alemanha e Reino Unido, para que abandonassem a Huawei”, afirma Ho-Fung Hung. “Não funcionou muito bem. O governo Biden convenceria os aliados a dispensar a Huawei na base da conversa...[em] uma abordagem multilateral”.

E, é claro, as RANs são apenas uma peça do quebra-cabeça. Ampliar a atuação em mercados como o de semicondutores e inteligência artificial também é um objetivo estratégico indispensável do governo chinês, colocando em prática os projetos Nova Rota da Seda e Made in China 2025, que visam à geração de crescimento econômico e consolidação da segurança nacional.

“Uma corrida econômica e por segurança”

Especialistas em segurança nacional dos EUA acreditam, a cada dia mais, que o modus operandi da China será oferecer um pacote de auxílios, investimentos e parcerias, incluindo projetos de infraestrutura, como portos e sistemas rodoviários, a países em desenvolvimento, mas, desta vez, junto com redes 5G e até sistemas de reconhecimento facial para a segurança nacional. Imagine o potencial deste plano de criar estados quase vassalos que, com ou sem seu conhecimento, fornecem dados e inteligência para a China.

E quando o governo Trump bloqueou a exportação de tecnologia americana para a China, os asiáticos responderam de uma forma que, talvez, o presidente não tenha previsto. “Em vez de confrontar as restrições americanas, os chineses basicamente procuraram meios de tentar reduzir a dependência de tecnologias importadas, especialmente dos EUA. Essa medida parece ser parte de uma estratégia mais ampla e de longo prazo que eles estão implementando”, afirmou Bruce Kasman, economista-chefe e diretor executivo de pesquisa global da JPMorgan Chase.

“Estamos em uma corrida contra um adversário: uma corrida econômica e de segurança”, afirmou William Reinsch, especialista em comércio do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos durante o governo Clinton. “Existem duas formas de vencer uma corrida: correndo mais rápido ou colocando o pé na frente do oponente para ele tropeçar. Controles de exportação são como colocar o pé na frente, dificultando o alcance dos objetivos pelo adversário. Existe momento e espaço para essa estratégia. Mas a opção mais interessante é correr mais rápido, ou seja, garantir que estejamos à frente tecnologicamente. Será difícil colocar essa ideia em prática a partir de agora porque os chineses investiram quantias astronômicas e atingiram suas metas de tecnologia constantemente com mais rapidez do que se esperava”.

Imagine o setor de tecnologia de consumo neste conflito, que mudou repentinamente. Gerações passadas de empresas de tecnologia de consumo americanas fizeram incursões à China. A linha de produtos da Microsoft (Word, Excel, PowerPoint etc.), por exemplo, é amplamente usada na China, assim como os notebooks da Apple (e Dell); e não se esqueça que a Lenovo comprou o negócio de computadores pessoais da IBM. Mas os chineses deixaram o ambiente mais hostil para uma próxima safra de empresas. O Google lançou seu mecanismo de busca na China em 2006, mas deixou o país subitamente quatro anos depois após um ataque de hackers e “discordâncias com relação à censura de resultados de busca” (embora a empresa ainda tenha certa atuação no país com versões do seu sistema operacional Android, que é utilizado na maioria dos celulares chineses). Mas e quanto às novas redes sociais: Facebook, Twitter, Snapchat, Pinterest? Pode esquecer, são serviços banidos na China (a rede de negócios, LinkedIn, agora propriedade da Microsoft, é uma exceção).

A situação era essa até a plataforma de rede social chinesa TikTok explodir nos EUA há dois anos.

“Do ponto de vista de diversas empresas do Vale do Silício, o mercado chinês está fechado, mas não havia tanto problema”, disse Rui Ma, apresentador de um podcast chamado Tech Buzz China que mora em San Francisco. “Até a chegada do TikTok, que causou um grande furor. ‘Antes, éramos dois mundos separados, mas que agora estão colidindo. Por que uma empresa chinesa pode atuar aqui e ser a líder em sua categoria?’ Se não houver acesso justo e equiparável aos mercados, teremos receio de sermos destruídos. Essa situação é extremamente injusta”.

E a administração Trump tomou a decisão de banir o TikTok, que agora tem mais de 80 milhões de usuários ativos por mês nos EUA. Mas o centro da discussão é o dinheiro, sempre o dinheiro.

“O sistema de pagamento associado aos aplicativos é a maior preocupação”, pontuou Ho-Fung Hung. “O Facebook e outras empresas de tecnologia americanas têm grande interesse em limitar a expansão do [aplicativo de mensagens chinês] WeChat e do TikTok nos sistemas de pagamento eletrônico. O governo americano pode tentar restringir e conter essa expansão. A possibilidade de lançar um sistema de pagamento para dispositivos móveis pode ser colocada em xeque pelo novo governo”.

O setor de pagamentos está bem presente na imprensa, com o presidente chinês Xi Jinping, em pessoa, supostamente banindo a IPO da Ant (que é parte da gigante plataforma chinesa Alibaba), após um conflito com seu fundador: Jack Ma, um bilionário carismático e entusiasta do ocidente, que provocou a ira do estadista quando afirmou que as regulações financeiras tinham uma “supervisão obsoleta” [que sufocava] a inovação e que os bancos chineses operavam com a “mentalidade de uma loja de antiguidades”.

Perguntei ao presidente da Alibaba Michael Evans sobre a IPO da Ant — que, naquele momento, estava apenas em espera — e as notícias de uma maior repressão regulatória na semana passada. “Não sei se eu usaria o termo ‘repressão regulatória’”, afirmou Evans. “A situação da Ant hoje é o que acontece no mundo todo. Em um setor como o de serviços financeiros, é essencial trabalhar junto com o órgão regulador”.

Inicialmente, o comentário de Evans pareceu um mero agrado aos reguladores chineses, e eu ainda acho que ele está sendo comedido, mas parei para pensar sobre o que as empresas de tecnologia americanas enfrentam em termos de regulação na Europa e cada vez mais aqui, nos EUA. Nosso descontentamento bipartidário nacional, o caso de amor e ódio com as big techs agora acontece em confrontos pelo Zoom entre nomes como Mark Zuckerberg, Sheryl Sandberg, Jack Dorsey e Sundar Pichai e senadores e deputados indignados e mal informados.

Não há dúvida de que o governo Biden vai empregar o escrutínio e tentativas de regulação iniciais. O real dilema de Biden é como domar as big techs, mas não a ponto de impedi-las de competir com os chineses. “Essa é a pergunta mais importante e mais complexa”, concluiu Reinsch. “Pessoalmente, acho que há um risco real de que uma abordagem muito intensa em termos de antitruste para as big techs pode acabar impedindo essas empresas de inovar”.

“A China desenvolverá mais e mais plataformas de tecnologia relevantes nos próximos anos”, afirma Hoffman. “Ou seja, você não vai mexer em time que está ganhando, certo? O ideal é fazer alguns ajustes. Mas eu acho que a ideia clássica de antitruste e cisão, falando de forma geral, vai de encontro à saúde e prosperidade dos americanos.”

Se Trump estava certo no diagnóstico de que a China não joga conforme as regras, mas nem tanto sobre o remédio (a guerra comercial), como Biden deveria proceder? Em primeiro lugar, de certa forma, ele tem uma certa vantagem graças a Trump, porque pode baixar o tom da retórica, ser mais diplomático e desfazer a guerra comercial mas, ao mesmo tempo, manter o rigor no setor de tecnologia. Em segundo lugar, Biden tem o apoio das empresas americanas para atuar agressivamente nas questões de tecnologia, como proteção de IP e segurança. De 2000 a, digamos 2015, as empresas queriam que o governo americano tomasse cuidado para não irritar os chineses, que prometiam mercados abertos. Agora, em muitos casos, essa ideia é vista como um erro. Reunir outras nações para confrontar a China será fundamental para Biden.

Assim que os EUA entrarem no período pós-COVID (termo que Evans usou para descrever a economia chinesa para mim) e restaurarem a economia, essa batalha pela supremacia tecnológica será o evento principal. Será um momento de dificuldade que determinará o futuro de todos os setores: bancário, médico (vacinas e biotecnologia), transporte, agricultura e energia.

Mas mais do que isso, essa é uma rivalidade que definirá sociedades: educação, cultura, força militar e, em último caso, liberdade e responsabilidade pessoais.

Apesar de os tecnólogos adoradores de algoritmos, tanto da China quanto dos EUA, eventualmente discordarem, no fim das contas, tudo vai ser resumir a um conjunto comum de valores humanísticos e à tomada de decisões éticas.

Não é exagero dizer que o futuro da humanidade depende disso.

Este artigo foi publicado em uma edição de sábado do Morning Brief, em 14 de novembro de 2020. Receba o Morning Brief diretamente no seu e-mail todos os dias, de segunda a sexta, às 4h30 (horário Brasília). Assine

Andy Serwer é editor executivo do Yahoo Finanças. Siga Andy no Twitter: @serwer.

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