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'A gente faz um papel que não é nosso, mas do Estado', diz Nathalia Arcuri sobre educação financeira

Lucas Carvalho
·11 minutos de leitura
Foto: Marcelo Spatafora/Divulgação
Foto: Marcelo Spatafora/Divulgação

Quando você procurar no YouTube alguma dica de finanças pessoais ou investimento, é certo que Nathalia Arcuri vai aparecer na página de resultados. Apresentadora e criadora do canal Me Poupe, a youtuber lidera o mercado de influenciadores de finanças com mais de 4,8 milhões de inscritos só no YouTube. É o maior canal do tipo em todo o mundo, não só no Brasil.

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Digo “só no YouTube” porque o Me Poupe já é hoje mais do que um canal na rede de vídeos do Google. O blog, ainda mais antigo que o canal, criado em 2015, é o hub central de uma marca que se expande também por cursos, livros e até um reality show sazonal na TV aberta, alcançando, ao todo, 14 milhões de pessoas por mês.

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O império erguido por Nathalia é hoje uma empresa com 22 funcionários, sede em São Paulo e mais estrutura do que muitos dos concorrentes. Mas, em uma entrevista exclusiva ao Yahoo, parte da nossa série de conversas com influenciadoras de finanças, ela admite que seu trabalho é dever da esfera pública.

“Hoje a gente faz um papel que não é nosso, mas que seria do Estado. Assim como contribuir para a educação”, diz Nathalia. “Mas eu não vou ficar aqui de braços cruzados esperando o governo fazer alguma coisa que é o que de fato, na minha opinião, vai mudar o Brasil.”

Na entrevista, que você lê a seguir, a youtuber e empresária de conta a origem do projeto, sua relação com órgãos estatais, sua visão sobre a concorrência e como a pandemia de coronavírus impactou o seu trabalho.

Yahoo De onde surgiu o Me Poupe e a vontade ser uma influenciadora de finanças?

Nathalia Arcuri Eu não sou economista de formação, mas eu sempre gostei muito da área de finanças. Comecei a guardar dinheiro com 7, 8 anos porque queria comprar meu carro com 18. Passei minha adolescência inteira pensando em maneiras de fazer mais dinheiro, ter alguma renda. Camiseta, boneco de biscuit, miçanga, tudo que eu aprendia a fazer eu fazia para poder vender e juntar dinheiro para comprar meu carro. Eu queria sair da faculdade e comprar meu apartamento à vista.

No penúltimo ano da faculdade [de jornalismo], consegui uma vaga no SBT como estagiária. Depois de muito tempo no SBT, fui chamada para ir para a Record, para ser repórter e apresentadora lá. Passaram-se dois anos de repórter e apresentadora, cobrindo os mais diversos tipos de reportagem, matérias especiais, internacionais, cobri tsunami, viajei o Brasil inteiro... E aí eu falei: "e agora?". Eu já queria fazer algo relacionado a finanças. Aí eu sugeri um quadro [para a TV Record].

Você ainda não queria sair da TV...

Eu sempre fui muito apaixonada por reality shows de transformação, tipo esses de obra, de pessoas e de tudo. Falei: por que a gente não faz um reality onde eu pego pessoas endividadas e transformo essas pessoas em investidoras em quatro semanas?

Isso foi em 2012. As pessoas acham que eu comecei ontem, mas já faz oito anos isso. O que eu recebi de resposta foi "olha, a sua ideia é tão boa que outra pessoa vai fazer". Eu descobri que essa outra pessoa tinha uma especialização em economia. Putz, se é uma especialização que eu preciso, se é de um carimbo, então eu vou atrás disso. Foi aí que eu comecei a estudar mesmo. Até então eu era autodidata.

Com o diploma deu certo?

Fiquei três anos tentando emplacar alguma coisa na TV onde eu trabalhava. Nada dava certo. Sempre me jogavam para baixo. "Você não pode fazer isso porque você não é colunista" etc. Até que em 2014 eu fui fazer uma matéria sobre violência doméstica que mexeu muito comigo. Eu descobri nessa matéria que a maior parte das mulheres que acabam morrendo, vítimas de feminicídio, não saem debaixo do mesmo teto que o agressor porque são dependentes financeiramente.

Aquilo mexeu muito comigo. Naquela mesma semana eu estava me separando do meu ex-marido e estava comprando a parte dele no nosso imóvel que compramos à vista. As pessoas precisam saber que isso é possível, eu preciso ensinar as pessoas. Aí eu decidi que ia passar o resto da minha vida ensinando as pessoas a serem livres através da educação financeira.

Nessa época o blog já existia...

Sim. Eu comecei a levar o canal e o blog a sério até que eu pedi demissão, em 2015. Eu sozinha, sem funcionário nenhum, sem dinheiro, já tinha conseguido um patrocinador nessa época. “Agora vou ter que transformar isso aqui num negócio e fazer esse treco dar certo”. No começo, o mercado como um todo, especialistas de finanças que já eram conhecidos na época, eram poucos, torceram o nariz, disseram que aquilo não tinha credibilidade, que era mais uma youtuber, que era muita papagaiada. Mas para mim, o que mais importava era mudar a vida das pessoas, falar a linguagem que as pessoas entendiam, não estava ali para agradar ninguém. Foi isso o que me manteve muito firme no meu propósito.

Quando você começou a levar a sério o blog e o canal, você já tinha a meta de ter um dos maiores canais do YouTube?

Não. Quando eu comecei, eu só queria mudar a vida de uma pessoa. De verdade. Foi muito mais sobre dar sentido para a minha vida, que estava um horror. Eu tinha depressão, odiava meu trabalho, ia arrastada para a TV todos os dias. Eu já tinha dinheiro suficiente para ficar dois anos sem trabalho nenhum. Se desse tudo errado, eu podia me sustentar por mais dois anos. Eu estava super tranquila financeiramente porque tinha me planejado para isso também.

Mas a minha ideia era poder mudar a vida das pessoas. E aí começaram a chegar os primeiros comentários. "Nossa, aquela dica que você deu, eu me livrei de um consórcio", "consegui quitar uma dívida", "saí da prostituição", "saí da casa do meu marido agressor", "você ajudou minha mãe que ficava de consignado em consignado". Você vai pegando tanto tesão nessas histórias que você fala: já que eu estou aqui, já que eu tenho mil seguidores, por que não ter 300 mil?

Sendo o primeiro e o maior canal de finanças, vocês viram muitos outros canais surgindo trazendo com suas próprias linguagens. Às vezes mais apelativos, com receitas de como ficar rico da noite para o dia, fórmulas mágicas etc. Incomoda a audiência que eles têm?

A gente tem mais view. A gente fazendo direito tem mais view, mais seguidor, mais consistência. Nós sabemos que estamos no caminho certo. E também é tudo passageiro. A consistência e a coerência é o que dão resultado, entende?

A gente só fica com receio que esse tipo de conteúdo possa impregnar na cabeça das pessoas. De, de repente, causar uma desesperança. Tipo "só tem conteúdo ruim", sabe? De as pessoas se basearem por baixo. Mas a gente tem um posicionamento, uma preocupação grande com a marca, responsabilidade nos conteúdos - a gente faz divertido, só que a gente faz sério, todo conteúdo tem muita pesquisa. As pessoas não precisam saber disso. Para o público final, você tem que chegar fácil, mas tem que chegar correto.

Alguns analistas acreditam que o boom de pessoas físicas investindo na Bolsa no último ano tem a ver com influência de youtubers. Você concorda?

Desde que o Me Pupe surgiu a gente tem acompanhado isso ano a ano. O número de investidores em Tesouro Direto, principalmente mulheres, cresceu junto com o crescimento do Me Poupe. Quando a gente pega a linha de crescimento, ela é muito parecida. Inclusive o aumento do público feminino: o nosso público é 65% feminino.

A gente já conversou algumas vezes com o Tesouro Direto, inclusive a [ex-secretária do Tesouro Nacional e ex-secretária-executiva do Ministério da Fazenda no Governo Michel Temer] Ana Paula Vescovi falou que o Me Poupe mudou a história do Tesouro Nacional. Teve um dia que a gente fez uma live e caiu o sistema do Tesouro Nacional de tanta gente que foi lá para investir.

Eu não tenho dúvida de que esse movimento de influenciadores contribuiu, sim, para o aumento de pessoas na renda variável. Não foi só isso, mas contribuiu bastante. Se essas pessoas não tinham acesso a essa informação e agora só no Me Poupe são 4,8 milhões de inscritos, e se você pensar que a Bolsa ganhou 1 milhão de novos investidores no último ano, certamente são pessoas que estão se sentindo mais à vontade porque tiveram acesso a conteúdos simples mostrando que, sim, é possível fazer.

Isso não te preocupa?

A qualidade desses investimentos é o que a gente realmente precisa prestar atenção. Quem influenciou? Como influenciou? As pessoas estão indo lá sabendo o que estão fazendo? Qual é o volume? Porque uma coisa é você falar que são 1 milhão de novos investidores, mas se na média essas pessoas têm 50 reais investidos, pode ser que estejamos vendo uma cortina de fumaça. Parece um número muito incrível, mas que no fim não é tão representativo em volume de dinheiro. Esses dados da B3 ainda não passou.

Para muitas pessoas, educação financeira se resume a dicas no YouTube e nas redes sociais. Você acha que falta iniciativa do governo e de empresas do setor financeiro - de cuidar da educação financeira da população?

Na verdade é uma obrigação, né. Hoje a gente faz um papel que não é nosso, mas que seria do Estado. Assim como contribuir para a educação. O que eu mais vejo é a dificuldade das pessoas de compreender questões básicas de finanças porque não entendem o básico de matemática ou de compreensão de texto. No meu curso mesmo, as pessoas têm uma dificuldade enorme de compreender o enunciado das coisas.

A gente faz um serviço que não era nosso, mas que precisa ser feito. O que eu tenho feito, usando a marca e a força que a gente tem, é cobrar o Estado. Eu converso muito com o Banco Central para perguntar "e aí, cadê as iniciativas?".

Mas eu não vou ficar aqui de braços cruzados esperando o governo fazer alguma coisa que é o que de fato, na minha opinião, vai mudar o Brasil. Enquanto a gente não entender que a educação, não só financeira, mas educação de qualidade é o que vai proporcionar cidadãos mais conscientes, profissionais mais bem capacitados, pessoas mais capazes de aprender... enfim, a gente tem uma cadeia a ser trabalhada, mas o Estado não está olhando para ela. A nossa posição é cobrar. É mostrar algo que não está sendo feito como algo que é essencial.

Como a crise do coronavírus impactou o seu canal, tanto em termos de conteúdo quanto em termos de produção? Os temas dos vídeos mudaram? Teve que gravar mais em casa do que no escritório?

Nós ajustamos a grade de programação e fizemos lives diárias com dicas, análises e respondendo dúvidas nesse momento de instabilidade, principalmente trazendo conteúdos que apoiem micro e pequenos empreendedores, autônomos e desempregados. Estamos criando também uma página que consolidará informações para apoiar ainda mais as pessoas.

Todo o time do Me Poupe está trabalhando remotamente e para nós, como empresa, é muito importante proteger nossa equipe e auxiliar em todos os cuidados possíveis e recomendados.

Agora, um bate-bola. Como você investe seu dinheiro?

Eu já fui muito conservadora quando estava montando meu patrimônio. Até porque peguei um momento de taxa de juros alta, então eu tinha quase tudo em renda fixa, pré-fixada, a longo prazo, pegando juros de 18%, 19% ao ano. Foi assim que eu montei meu patrimônio até meu primeiro milhão. A partir disso, eu comecei a ficar mais tranquila e falei: bom, meu colchãozinho de tranquilidade está lá, agora eu vou ousar mais. E aí eu fui mais para renda variável. Hoje, 70% dos meus investimentos estão em fundos e renda variável.

Um livro?

Recomendo o meu, né, claro. [Risos] De verdade, algo que eu ouço muito das pessoas é: "o seu livro ['Me Poupe!: 10 passos para nunca mais faltar dinheiro no seu bolso’, publicado em 2018 pela editora Sextante] mudou a minha vida porque eu entendi o que ninguém nunca conseguiu me explicar".

Além do meu, eu gosto muito dos livros que falam sobre comportamento em geral. Eu sempre cito o "Mindset" [de Carol S. Dweck], um livro que eu gosto muito e fala sobre como você se comporta diante das frustrações. E, querendo ou não, isso tem tudo a ver com ganhar mais dinheiro ou não.

Uma música, álbum ou artista?

Eu gosto muito de música. Pode ser uma anti-indicação? Não sai da minha cabeça aquela maldita da "Dance Monkey" [de Tones and I]. Recomendo fortemente que você não ouça, porque nunca mais vai sair da sua cabeça. [Risos]

Um filme?

Meu filme predileto é "Gran Torino" [de Clint Eastwood, 2008].

Um influenciador ou influenciadora que você acompanha e recomenda?

Cátia Damasceno. Nós duas falamos sobre os temas mais difíceis e tabus do Brasil: ela fala sobre sexo e eu falo sobre dinheiro.

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