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'A Fazenda': é sério que vamos bater palma para o machismo de Biel?

Marcela De Mingo
·5 minutos de leitura
'A Fazenda 12' mal começou e Biel já foi o exemplo claro do pensamento machista e gordofóbico
'A Fazenda 12' mal começou e Biel já foi o exemplo claro do pensamento machista e gordofóbico

A nova edição do reality 'A Fazenda’, da Record, já começou com polêmica. Isso porque um dos participantes é ninguém mais, ninguém menos, que Biel, o cantor que foi acusado de assédio por uma jornalista e que saiu impune do caso.

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Recentemente, ele foi um exemplo claro de como a mentalidade masculina tóxica funciona ao falar da funkeira Jojo Todynho, que também está participando da atual temporada do programa, com outros participantes do reality show. O comentário de Biel foi o seguinte:

"Você acha que a Jojo fica feliz em ver a Mirella no palco? Elas são duas cantoras de funk. E a Mirella linda, no palco? A música da Jojo tocou, todo mundo cantou, a da Mirella ninguém cantou, mas a Mirella brilhou! Ela não precisa ter uma música estourada. Ela brilhou! Tacou a bunda pra cima e pra baixo, os homens tudo babando. E a Jojo? Causaria isso em alguém aqui dentro?"

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Você consegue ver o "discurso" do participante no vídeo abaixo. E vamos aproveitar para explicar de que forma essa fala exacerba uma série de pensamentos machistas, gorfóbicos e objetificadores de uma vez só.

Como Biel representa a mentalidade machista

Há algum tempo, a cantora Lizzo jantou. No caso, o "jantar", como dizem na internet, foi a resposta que ela deu à um repórter brasileiro que perguntou a ela sobre a sua aparência durante uma entrevista. Questionada sobre ser diferente do "padrão convencional", ela disse que não via problema nenhum com a sua aparência e que quando entrava em uma sala, todos olhavam para ela - o que é ótimo.

Meses depois, Lizzo voltou a ser manchete quando postou um vídeo mostrando a sua rotina de exercícios físicos em casa, explicando que ela se exercitava não por conta da pressão social ou para se encaixar em um padrão, mas porque ela gostava e queria se manter saudável.

Voltando à Fazenda, Lizzo e Jojo se relacionam porque as duas foram - e ainda são - julgadas pela aparência. Isso sem o contar o fato de as suas serem mulheres negras, o que, por si só, já é justificativa o suficiente para o julgamento alheio. Ambas são bem sucedidas, ambas são inspirações para milhares de pessoas, mas, ainda assim, são reduzidas ao seu corpo.

Na fala de Biel, a gordofobia começa quando ele diz que Jojo tem músicas que "tocam as pessoas", mas não deixa "os homens tudo babando". Nós já comentamos sobre gordofobia por aqui e como é um processo de desconstrução olhar para as pessoas além da sua aparência, já que essa foi a norma até então. Movimentos como o body positive e famosas como a modelo Ashley Graham, a própria Jojo e Preta Gil despontaram com um trabalho profundo de autoaceitação e de desmistificar e quebrar os padrões vigentes - e, vamos combinar, já não era sem tempo.

Fora isso, há uma segunda problemática na fala do cantor. A comparação com MC Mirella que, segundo ele, "tacou a bunda para cima e para baixo" e isso conquistou a atenção masculina. Aqui, saímos da gordofobia e entramos na objetificação descarada. Quer dizer que Jojo tem músicas que cativam o público, mas não merece atenção porque não tem um corpo "padrão"? E, mais do que isso, Mirella deve ser celebrada não pelo seu talento, mas pelo o seu corpo? Qualquer que seja a personagem em questão, o seu valor intelectual e profissional é deixado de lado para que o seu corpo vire o protagonista. Tanto faz as conquistas que cada uma delas teve na vida, o que importa é quem tem bunda e quem não tem.

Lembramos até quando Marcela, dentro do 'BBB-20', deixou clara a questão da objetificação feminina, explicando que as mulheres são vistas como objeto de desejo sob a obrigatoriedade de satisfazerem sexualmente os homens. Parece bobagem? Perceba que tipo de mulher chama mais a sua atenção. Com certeza, tem algo relacionado à sua aparência.

A partir daí, seguimos para a rivalidade feminina, afinal, é claro que as duas precisam competir em algum nível, certo? Ah, competir pelo quê? Pela atenção masculina, é claro. É isso que Biel questiona no final: Jojo consegue o mesmo impacto que Mirella tem com os homens dentro do confinamento? Segundo ele, a resposta óbvia é "não".

Dado o seu histórico com as mulheres, é claro que Biel não demonstraria outra coisa dentro do reality show que não uma mentalidade extremamente machista, gordofóbica e, porque não, tóxica. E o efeito se vê na hora: os demais peões em silêncio, ouvindo, sem contestar, discordar ou dizer um "A" em resposta. É a famosa "passada de pano", a concordância silenciosa que diz duas coisas: ou eles, de fato, concordam com as ideias de Biel, ou não se sentem confortáveis em confrontá-las por medo de não serem aceitos. Mais uma vez, qualquer que seja o caso, tem tudo a ver com masculinidade tóxica.

O ponto com tudo isso é: ideias como essa já eram antigas quando surgiram. Agora, então, se fazem ainda mais velhas. Os homens podem reclamar e protestar à vontade, mas a mudança vai acontecer e, sim, ela é feminista. Não porque cria uma cultura de ódio aos homens, mas porque busca equidade entre os sexos. Não só isso, mas o movimento que acontece agora é de busca por igualdade como um todo, inclusive de raças e, cada vez mais, a única reação possível a comportamentos como esses será a boa e velha vergonha alheia.