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Ações da Petrobras caem 19% por temor de interferência de Bolsonaro

·3 minuto de leitura
Foto de arquivo de 2018 mostra o então presidente eleito Jair Bolsonaro (E) e o então ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, em Itaguaí, Rio de Janeiro

As ações da Petrobras abriram nesta segunda-feira (22) com queda acentuada de 19% devido a temores de interferência do governo na companhia, depois que o presidente Jair Bolsonaro nomeou na sexta-feira à noite um general para presidi-la.

As ações ordinárias e preferenciais da estatal de capital aberto caíam mais de 19% às 11h00, uma queda que derrubou o índice Ibovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo, que perdia mais de 5% em relação ao fechamento de sexta-feira.

Os papéis da Petrobras já haviam sido duramente atingidos na sexta, depois que Bolsonaro, que chegou ao poder prometendo um programa econômico liberal e várias privatizações, anunciou que haveria "mudanças" na empresa e na quinta-feira criticou vários aumentos sucessivos no preço da gasolina.

Após a sessão de sexta-feira, o presidente anunciou que havia nomeado um general da reserva do Exército, Joaquim Silva e Luna, para substituir o atual presidente Roberto Castello Branco na direção da empresa, nomeado há dois anos pelo ministro da Economia, o liberal Paulo Guedes, um aliado chave do Bolsonaro para os mercados.

A decisão, que deve ser confirmada na terça-feira pela diretoria da Petrobras, gerou temores de que o presidente intervenha na política de preços da empresa.

"Não foi só a nomeação, foi a troca. O governo mostrou claramente uma interferência na Petrobras, justamente porque Bolsonaro é contra a sistemática de reajuste de preços dos combustíveis", comentou à AFP o economista Alex Agostini, da Austin Rating.

O governo "sinaliza claramente que vai fazer intervenções", apontou.

"E a gente sabe que no passado, no governo da Dilma (Rousseff - 2011/2016), isso foi feito, gerando um prejuízo muito grande para a Petrobras, porque praticou preços abaixo do preço de mercado", acrescentou.

A Petrobras aumentou quatro vezes o preço dos combustíveis em 2021, com alta acumulada de 34,78%, diante dos quais o poderoso setor dos caminhoneiros ameaçou o governo com a convocação de uma greve.

- "O petróleo é nosso?" -

Bolsonaro venceu as eleições em 2018 com um forte apoio do setor empresarial, seduzido pelas promessas reformistas de Guedes. O presidente, porém, parece cada vez mais inclinado a cortar as asas de seu ministro, enquanto prepara sua aposta na reeleição em 2022.

"O petróleo é nosso? Ou de um pequeno grupo?", perguntou o presidente na sexta-feira aos seus apoiadores em frente à sua residência oficial.

"Tem coisa que tem que ser explicada. Eu não peço, eu exijo transparência de quem é subordinado meu. A Petrobras não é diferente disso aí", acrescentou.

O presidente também afirmou que "jamais vamos interferir nessa grande empresa, na sua política de preços".

Os analistas e os mercados, no entanto, não parecem muito convencidos disso.

Os anúncios de Bolsonaro "aumentam o clima de aversão ao risco entre os investidores internacionais no Brasil e o compromisso da atual equipe econômica liderada por Paulo Guedes com a agenda liberal", diz a consultora econômica Necton em nota.

"Mostra um abandono por parte de Bolsonaro dessa agenda liberal que, na verdade, nunca entrou em vigor, e mostra que Guedes está extremamente debilitado, o que causa mais preocupação com o que pode vir a partir de agora", declarou Agostini.

"Parece um ensaio para sua saída", acrescentou.

- O "liberalismo" econômico em discussão -

O presidente anunciou mais mudanças na petroleira estatal neste fim de semana para os próximos dias e disse que "vamos meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema".

Essa última declaração fez com que as ações da Eletrobras, cuja privatização há muito se fala no Brasil, despencassem mais de 7% logo após a abertura da Bolsa de Valores de São Paulo.

Os temores dos investidores também se refletiam no mercado de câmbio. O real desvalorizava nesta segunda mais de 2,5%.

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