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46 milhões em 3 meses: é possível vacinar todos os paulistas até fevereiro?

Anita Efraim
·3 minutos de leitura
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(Foto: Getty Images)

Na última segunda-feira, 21, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse estar otimista de que até fevereiro de 2021 será possível vacinar as 46 milhões de pessoas que vivem no estado contra o coronavírus. A perspectiva deixou muitos paulistas otimistas, mas divide a opinião de especialistas.

Evaldo Stanislau, diretor da Sociedade Paulista de Infectologia e infectologista do Hospital das Clínicas, acredita ser “plenamente factível” vacinar toda a população do estado. “A declaração do governador não me parece fora de contexto. O Instituto Butantan tem tradição em fazer vacina, já está fazendo a logística. Se os estudos da fase três derem certo, como esperamos, até o final do ano devemos ter a aprovação da Anvisa”, projeta.

Para que a população possa ser imunizada, após a aprovação nas três fases de teste, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária precisa autorizar a vacina. Então, é possível começar o processo de imunizar a população.

Por outro lado, fontes ligadas à saúde do estado dizem que o governo de São Paulo pode ter dificuldades para comprar todas as vacinas sem ajuda da federação. Normalmente, o programa de imunização é feito pelo governo federal. O ministério da Saúde compra as vacinas e faz a distribuição entre os estados.

O temor de pessoas que trabalham na área da saúde em São Paulo é que o governo Doria não consiga dar conta de toda a estrutura necessária para uma ampla vacinação. Além das doses da vacina, há ainda os insumos, como seringas.

É importante lembrar ainda que a vacina contra a Cocid-19 desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, está sendo aplicada em duas doses. Isso torna os custos mais altos, além de fazer com que a logística de aplicação seja mais complexa.

A questão principal não é a dificuldade em produzir a vacina, mas o tempo prometido pelo governador. Com dificuldades na capilaridade da vacina, a sugestão dada por profissionais que trabalham com imunização seria priorizar grupos de risco.

POLITIZAÇÃO DA VACINA

A principal crítica feita pelos especialistas é a da politização da vacina. Evaldo Stanislau frisou que a disputa entre governos estadual e federal pode atrapalhar a disseminação da vacina contra o coronavírus. “Começaram uma disputa, chamando pejorativamente de vacina chinesa e agora vemos pessoas dizendo que não tomarão a vacina, o que é uma bobagem”, opina. “É uma vacina que tem sido produzida a luz do dia, com estudos publicados.”

O infectologista do Hospital das Clínicas ainda lembrou que a vacina da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, também tem estudos públicos. A imunização está sendo testada no Brasil, em parceria com o governo federal.

“Em vez de ficar polemizando um assunto que é muito sério, deveríamos estar vendo sinergia, o que não está acontecendo”, aponta.

Eder Gatti, infectologista do Hospital Emílio Ribas, acredita que o ideal seria que o governo federal comprasse todas as vacinas aprovadas pela Anvisa e licenciadas para usa. Dessa forma, poderia ser elaborado um uso estratégico da vacina não só em São Paulo, mas em todo o país.

Outro destaque negativo que pode influenciar uma possível imunização são as campanhas antivacina. “Uma vacina importante como essa precisa ter adesão. Se tivermos um percentual abaixo do necessário, aqueles que por alguma razão não puderem tomar a vacina vão ficar expostas”, explica. “Assim, vamos viver com pequenos surtos. O risco de não atingir é que se mantenha uma parte da população vulnerável, como aconteceu com o sarampo.”

Gatti ressaltou que o Sistema Único de Saúde tem uma boa estrutura para disponibilizar a vacina, quando esta estiver pronta e houver possibilidade de distribuição. “Com essa guerra política, podem acabar comprometendo o que demoraram tanto para construir.”