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30 anos depois, Watchmen é a história de heróis mais importante da nossa geração

Regina King como Sister Night. Foto: HBO

Por Thiago Romariz* — A série mais forte de 2020 é um lançamento de 2019. Watchmen, a expansão do universo criado por Dave Gibbons e Alan Moore revelada pela HBO no final do ano passado, fala sobre os confrontos que a nossa sociedade vive hoje.

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Atacada por muitos puristas, a série ousou ao mexer no vespeiro da obra original - uma das peças mais importantes da literatura moderna. O seriado usa máscaras de heróis e ficção-científica para cutucar a antiga ferida da supremacia branca e o racismo estrutural que assola nossa comunidade - e é a única produção do gênero a fazer isso com tamanha coragem e precisão.

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A escolha por uma protagonista negra é só a ponta de afronta que a série trouxe aos mais conservadores. O roteiro de Damon Lindelof vai além, colocando a cultura da polícia em voga e até questionando os conceitos defendidos por Rorschach, algo que revoltou uma parte significante dos fãs dos quadrinhos.

Por mais que deixe espaço para discussão, é óbvio o objetivo de Lindelof ao provocar esses questionamentos e contextualizar as iniciativas afrontosas que Moore trouxe na década de 1980. A força do sistema, a impossibilidade de mover culturas e a controle do mais fraco sempre foram temas do texto no papel e se tornaram, em outro recorte do tempo, temas da série de TV.

Aqui, o foco está principalmente na brutalidade policial e na relação entre raça, política, movimentos sociais e culturais nos EUA - e em muitos casos no mundo inteiro. É impossível não revisitar o piloto baseado nos acontecimentos em Tulsa ou o incrível episódio sobre a identidade do Justiça Encapuzada, vivendo o que estamos vivendo.

É impossível não lembrar de George Floyd ou João Pedro, ou de Kaepernick, ou de Bolsonaro, ou de Trump, ou de Putin, ou de todos nós. Um dos êxitos de Watchmen é deixar seu tema ser mais forte do que seus heróis. As dores são maiores que as habilidades, o contexto e, principalmente, o legado é maior do que qualquer missão.

A jornada da série é sobre redescobrir valores e reinventar conceitos daquele universo - os personagens fazem isso, e consequentemente o roteiro replica tudo isso mirando a sociedade atual.

A forma como Sister Knight, a heroína principal, passeia pela história e mexe as peças do tabuleiro de Watchmen foca principalmente na volta de políticas supremacistas e as dores de viver em um mundo racista e assolado por acontecimentos globais, como o ataque de uma lula gigante ao planeta. Desse prisma, Watchmen talvez fale mais sobre o nosso futuro do que o nosso presente.

Foto: Reprodução / HBO

A pandemia é o nosso monstro gigante. Viveremos daqui pra frente sob o trauma que foi o coronavírus e ao mesmo tempo teremos que lidar com as desigualdades sociais que explodiram na crise. Não teremos heróis, nem mascarados para salvar ninguém, até porque, como mostra Watchmen, nem mesmos eles salvam uma sociedade.

E é essa coragem de enfrentar temas tão atuais e relevantes que faz a série da HBO se tornar não só a melhor série de 2020, mas também a mais importante obra de heróis dos últimos anos, tal qual foi sua inspiração na década de 1980.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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