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26 milhões não procuraram emprego durante a pandemia apesar de quererem trabalhar

DIEGO GARCIA E ÚRSULA PASSOS

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O Brasil tem 25,6 milhões de pessoas que gostariam de estar trabalhando, mas não procuraram emprego no mês de maio, durante a pandemia do novo coronavírus no país, informou nesta terça-feira (16) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Desse total, 17,7 milhões afirmaram não ter procurado ocupação ou por causa da pandemia ou por não ter trabalho na localidade em que moram —o que também pode estar ligado à Covid-19.

Essa é a primeira edição de uma pesquisa extraordinária realizada pelo IBGE, chamada de Pnad Covid19, para medir os efeitos da doença sobre a população e sobre o mercado de trabalho. Ela não é comparável, porém, com a Pnad Contínua, que mede o desemprego no país.

A pesquisa identificou também que a pandemia afastou 14,6 milhões de pessoas do trabalho. Segundo o IBGE, a motivação do afastamento foram questões relacionadas à Covid-19, como estar em quarentena, isolamento, distanciamento social ou férias coletivas. Esse número sofreu queda ao longo de maio: eram 16,5 milhões no início do mês.

Outras 10,9 milhões de pessoas estavam desempregadas no período, o que significa que procuraram, mas não encontraram ocupação. Assim, no total, cerca de 28,6 milhões de pessoas tiveram acesso restrito ao mercado de trabalho durante o mês de maio.

De acordo com a pesquisa, o contingente de desocupados também aumentou, indo de 9,8 milhões de pessoas na primeira semana para 10,8 milhões no fim do mês. Já 8,8 milhões de brasileiros trabalham de forma remota durante a pandemia.

No fim de maio, o IBGE já havia divulgado na Pnad Contínua que a pandemia do novo coronavírus contribuiu para que 4,9 milhões de posto de trabalho fossem perdidos no Brasil no trimestre encerrado em abril, um recorde na série histórica. Desse total, 3,7 milhões postos de trabalho informais foram perdidos.

Segundo a Pnad Covid divulgada nesta terça, o contingente de informais caiu ao longo do mês, indo de 35,7% na primeira semana do mês para 34,5% na última, com redução de 870 mil postos informais no período.

Segundo Cimar Azeredo, diretor de pesquisas do IBGE, a informalidade funciona como um amortecedor para as pessoas que vão para o desemprego ou para a subutilização.

"O trabalho informal seria uma forma de resgate do emprego, portanto não podemos dizer que essa queda é positiva”, afirmou Azeredo.

De acordo com o IBGE, como a pesquisa é inédita, é necessário aguardar os próximos resultados para avaliar com mais precisão o impacto da pandemia entre os informais.

Outros dois indicadores divulgados pelo IBGE em junho mostram os impactos da pandemia na economia brasileira. A indústria teve queda de 18,8% na comparação com março, e 27,2% se analisado o mesmo período do ano passado. Já o comércio recuou 16,8% nos dois níveis de análise. Os números, tanto no setor industrial quanto no varejo, são recordes negativos.

Um dos setores que mais sentiu o distanciamento social foi o da indústria têxtil, com queda de 28,5% na produção industrial e 60,6% do comércio de vestuário, tecidos e calçados. Segundo Fernando Pimentel, presidente da ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), mais da metade das empresas do setor demitiram durante a pandemia.

Segundo ele, se não fosse a MP (Medida Provisória) 936, que autoriza o corte de salários e jornadas de trabalhadores, o número de demissões teria sido bem maior.

Cerca de 10 milhões de brasileiros tiveram o contrato de trabalho afetado pela medida.

"A economia despencou. Se não tivessem essas medidas, mais empregos teriam sido perdidos. A redução de quadros foi de até 20% do contingente e englobou cerca de 60% das empresas", disse Pimentel. ​

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, apontou que a flexibilização nas medidas restritivas, que vem ocorrendo em alguns estados neste mês de junho, vai ajudar a economia a se recuperar e novos postos de trabalho surgirem.

"Hoje, consigo enxergar uma recuperação. A economia vai reabrir de maneira gradativa e vamos sentindo com mais intensidade em junho e assim por diante", apontou o economista, fazendo ressalvas que a melhora vai depender também da evolução da pandemia, já que novas medidas restritivas podem frear a retomada.

Para Otto Nogami, economista do Insper, o que chama a atenção é a quantidade de pessoas fora da força de trabalho, que chega a 74,6 milhões. Segundo ele, o número é preocupante e uma contribuição da pandemia. O processo de recuperação não será rápido.

"Na medida que pequenos negócios encerram atividades, você começa a ter um impacto na estatística geral. O agregado de perdas de mercado é gigante, as micro e pequenas empresas representam a base da pirâmide, e ela está sendo desmontada", disse o economista.

A Pnad Covid foi divulgada pela primeira vez pelo IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde, e mobilizou dois mil agentes, que vão ligar a 193,6 mil domicílios em 3.364 cidades em todo o país.

O primeiro caso conhecido de Covid-19 ocorreu em 25 de fevereiro. No mês seguinte, março, o país começou a sentir os efeitos econômicos do novo coronavírus, com fechamento de bares, restaurantes e comércio como forma de evitar avanço da pandemia.