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100 dias de coronavírus: a experiência de uma médica na linha de frente do combate à pandemia

Médica trabalhava no Serviço de Transplantes antes da pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Luciana Haddad é médica, livre docente em medicina pela USP e trabalha no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Normalmente, a área de atuação da profissional é no Serviço de Transplante de Órgãos do Aparelho Digestivo, mas tudo mudou em março, quando o coronavírus chegou ao Brasil.

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O prédio do Hospital das Clínicas no qual Luciana trabalhava foi transformado e virou um espaço para atendimento exclusivo para paciente com Covid-19. Médicos de diferentes foram consultados se preferiam ser transferidos e continuar na área de atuação original ou se poderiam integrar a linha de frente.

“Eu optei por ficar. Lembro que fiquei com muita vontade de ir para o pronto-socorro, mas como a enfermagem do meu setor ia ficar, me ofereci para continuar com meu time”, explica.

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A transformação do hospital começou em janeiro, quando os casos de coronavírus eram restritos à China, mas foi em março que tudo mudou efetivamente. Luciana descreve o início de trabalho como “intenso”. “Nós tínhamos uma imagem do víamos na televisão, da situação da Itália, por exemplo, que naquele momento era catastrófica”, relembra.

“Era uma mistura de sentimentos. Tinha um pouco de medo com ansiedade. Era uma sensação de estar indo para uma guerra, mas sem saber como seria. Tive dificuldade para dormir, tinha pesadelos, mas não era um medo paralisante”, relata.

No início, a médica temia que ela e os colegas se contaminariam rapidamente. Mas não foi o que aconteceu.

OS CUIDADOS E OS TESTES

O Hospital das Clínicas começou a testar os funcionários recentemente. Luciana Haddad conta que foi testada duas vezes e periodicidade dos exames é a cada 15 dias. A viabilidade de testar os funcionários se deu após o hospital receber uma doação.

Para se proteger e evitar levar o vírus para fora do trabalho, Luciana relata que ela e todos os funcionários do HC trocam de roupa e colocam a paramentação completa para examinar pacientes: óculos, face shield, luva e touca. Todos os dias, o sapato é o mesmo, aquele que a médica deixa no hospital.

O que é importante é não circular com objetos que tenham tido contato com as gotículas de um paciente contaminado. O celular, por exemplo, nunca entra no local onde está o paciente. Todos os equipamentos usados para examinar o doente ficam no local, chamado de “covidário”.

“No começo tínhamos um cuidado excessivo. O que percebemos é que a contaminação por contato é menos frequente que achávamos no começo”, diz. “Acho que nos contaminamos pouco porque sabemos onde está o problema.”

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RELAÇÃO COM OS PACIENTES

Segundo Luciana, o cenário na enfermaria na qual atende mudou com os hospitais de campanha. Antes da abertura dos espaços temporários, o paciente mais comum era o que chegava com coronavírus e já tinha uma situação grave e precisava ficar no hospital.

“Muitos pioravam e iam para a Unidade de Terapia Intensiva. Era um momento ruim, tínhamos que avisar de que ele provavelmente ficaria em coma, fazíamos uma vídeo chamada com familiares, que sempre ficavam muito preocupados. Entre esses casos, alguns soubemos que faleceram”, descreve.

Com os hospitais de campanha, o perfil do paciente da enfermaria mudou: eram os doentes que deixaram a UTI. “Recebemos doentes que tiveram dias difíceis, passaram por 15, 20 dias de intubação. É um perfil diferente, um doente ainda crítico, com necessidade de reabilitação”, conta. O trabalho feito por Luciana e pela equipe da enfermaria é para que esse paciente recupere autonomia, que consiga se alimentar e andar, por exemplo, para conseguir ir para casa.

Para Luciana, um momento bom da enfermaria é poder fazer o primeiro contato com a família do paciente, depois de dias sem conseguir sequer falar.

Ainda mais especial é o momento da alta. A equipe faz comemorações quando os pacientes são liberados, inspirados no que viram na Europa. São entregues certificados e sempre há festa. “É muito legal, a equipe fica empolgada. Dá ânimo, porque as internações são muito longas, é sempre uma luta. É um momento de fôlego”, relata.

NOTÍCIAS FALSAS E DESINFORMAÇÃO

Questionada sobre o efeito das notícias falsas e da desinformação no trabalho diários, Luciana relata que a questão dos tratamento é a mais complicada e revela que houve questionamentos por parte de pacientes. “Muitas vezes o questionamento é feito pelo paciente leigo de forma até agressiva, baseando-se em ‘conhecimento’ de redes sociais”, conta. O que ela faz é explicar que o hospital segue protocolos, sem dar margem para esse tipo de confronto.

“Temos o papel de disseminar conhecimento, de ajudar a propagar as boas práticas da ciência”, pondera. “Sempre me coloquei nessa postura, de não ir para o embate ignorante, mas sim tentar levar de forma científica.”

REABERTURA

Em meio à uma reabertura gradual do comércio em São Paulo, o estado bateu recorde de mortes em 24 horas, com 434 vítimas da Covid-19.

O problema, para a médica, não é haver um plano de reabertura, mas como a população usa essa informação. Luciana divide a população em três grupos: os que nunca foram a favor do isolamento social, seja por não querer mudar toda a rotina ou por não ter condições; os que cumpriram o isolamento no início e cansaram; aqueles que seguem no isolamento social.

Para ela, o mínimo que deve ser observado é um platô prolongado, ou seja, um longo período com números constantes de novos casos e mortes, em vez de uma queda dos índices.

AS REDES SOCIAIS

Até a chegada da pandemia do novo coronavírus, Luciana Haddad usava as redes sociais para compartilhar a rotina de treinos. Triatleta amadora, ela já completou 13 vezes o Ironman, competição em que os atletas nadam 3.800 metros, pedalam 180 quilômetros e correm 42 quilômetros.

Luciana Haddad já completou 13 vezes o Ironman (Foto: Arquivo Pessoal)

Com o coronavírus e a nova rotina, ela optou por usar o Instagram para contar sobre a vivência no hospital e conscientizar os seguidores sobre a importância do isolamento social. “Quando comecei a falar de Covid na minha rede social, percebi que meu público era carente de informação da doença e que talvez não quisesse tanto se informar em outros meios. Porque é o pessoal do esporte, muita gente ficou muito cansada do excesso de informação, isso começou a fazer mal e viram ali um caminho de se informar de uma forma um pouco mais rápida e com alguém que eles confiassem”, afirma.

“Senti que ajudou, pelo menos para o pequeno público, que é mais fiel. As pessoas precisam de alguns exemplos e de exemplos de pessoas em quem elas confiam. E o fato de eu estar dentro do hospital, lidando com a doença, trouxe uma voz muito verdadeira.”

Para ela, a grande diferença entre a situação vivida hoje e uma guerra é a dificuldade de ver as vítimas. O doente infectado com o novo coronavírus está no hospital, não é possível ver o sangue na rua e, por isso, avalia Luciana, muito ignoram a situação, o que a deixou incomodada.

ROTINA DE TREINOS PARA O IRONMAN

Com os dias cheios no covidário e o isolamento social, os treinos de Luciana deixaram de ser prioridade. Ela usa a bicicleta dentro de casa, corre na esteira. Mas não é todo dia que ela está animada. “Nesse momento, essa não é minha prioridade. Percebi que me ajuda, me faz bem, até durmo melhor, mas sem cobrança, sem ideia de performance”, diz.

“Quem está sofrendo porque não pode sair perde a oportunidade de fazer algo interessante com aquele tempo. Tem que tentar ter uma visão positiva, se não, já é difícil demais”, finaliza.

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