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10 dos filmes mais subestimados do século XXI

Sihan Felix

Se escrever uma lista já é uma tarefa pessoal e quase que totalmente subjetiva, taxar se um filme é subestimado eleva esse sintoma. Na verdade, superestimar ou subestimar algo é muito abstrato. Essas colocações acabam criando uma noção de verdades absolutas, quando não passam de ponderações pessoais e particulares, que dependem exclusivamente de quem as escreve.

Por outro lado, há filmes que passam realmente despercebidos – seja pela crítica, seja pelo público – ou permanecem em alguma espécie de limbo. Alguns ficam esperando serem descobertos ou para terem o reconhecimento merecido.

Lembrando que o que é subestimado para mim pode não ser para você; o que é bom para mim, pode ser ruim para você. Não há regras. E a lista não é de filmes taxativamente excepcionais. Escolhi 10 filmes do século XXI que merecem uma luz, um novo olhar, um carinho a mais.

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Sem mais demora e dentro dessa abordagem subjetiva, sem verdades absolutas e muito pessoal, vamos à lista de alguns dos filmes mais subestimados do século XXI:

1. Sombras da Vida (A Ghost Story)

Sombras da Vida talvez seja meu filme favorito de 2017 e um dos meus mais queridos dos últimos anos. Ele tem tanto a dizer sobre tempo e o quanto ele nos influencia; sobre permanecer ou se livrar de amarras; sobre o que fazer com nosso passado e com o nosso presente... Ele é, sobretudo, um tratado sobre amor e morte. É um trabalho tão simples e que procura internalizar tudo através de uma contemplação mais do que necessária – dada a temática – que o resultado final é puro, delicado e, acima de tudo, profundo. Pode ser que seja o caso de “ame-o ou deixe-o”, mas, ainda assim – e em comparação com tantas superproduções –, trata-se de um filme com orçamento extremamente baixo que vale muito mais do que muitos blockbusters vazios.

2. À Prova de Morte (Death Proof)

Tarantino em uma lista de subestimados? Sim. Porque À Prova de Morte parece ter passado um pouco camuflado pela patrulha antitarantinesca e, até mesmo, com uma certa calmaria pelos fãs do roteirista e diretor. É verdade que Tarantino tenta emular a década de 1960 – inclusive com movimentos de câmera – de uma maneira espetaculosa, cheia de perseguições fantásticas e muito sangue espirrando para todos os lados. Mas o que vale aqui é a percepção de que o filme, no final das contas, é feito pelas veias abertas do diretor. Eu me arrisco a dizer que, mesmo não sendo o melhor de sua carreira, é aquele que mais tem de si, especialmente por ser um trabalho que funciona como um pedido de desculpas para Uma Thurman, acidentada no set de Kill Bill: Volume 2.

3. Rush: No Limite da Emoção (Rush)

Eu não nego que sou absolutamente fascinado por este filme. Recentemente, quando escrevi sobre ele – logo após a morte de Niki Lauda –, finalizei com: "É quando um filme consegue ser tão intenso como entretenimento e tão legítimo quanto arte e provocação que ele consegue abraçar o espectador com o maior carinho possível. Rush: No Limite da Emoção é esse abraço eterno de Niki Lauda e recheado de um impulsivo beijo de James Hunt... mas centrado na vida". Para quem é fã de automobilismo, velocidade e cinema, esse é o filme mais poderoso já realizado... e passou um tanto quanto frio pelos cinemas e pelas principais premiações.

4. Silêncio (Silence)

Para alguns, Silêncio é um dos filmes mais fracos de Martin Scorsese. Por outro lado, é uma obra que expõe como pouquíssimas a intolerância humana e o silêncio de Deus – que talvez doa no filho (e nos filhos) muito mais do que pregos fincados no corpo e uma coroa de espinhos. Scorsese permanece sempre a uma distância respeitosa, o que torna o sofrimento que se vê mais tocante do que as atrocidades em close de A Paixão de Cristo de Mel Gibson (2004). Há uma combinação do ponto de vista mitologicamente divino com a visão de católico decaído do próprio diretor que faz tudo ser um grande questionamento. E, fazendo pensar, o filme acaba por ser grande. É um dos melhores filmes de 2016.

5. Memórias Secretas (Remember)

Memórias Secretas conta a história de um homem idoso e machucado pela idade que, com a ajuda de um companheiro sobrevivente de Auschwitz e uma carta manuscrita, sai em busca da pessoa que ele acredita ser responsável pela morte de sua família. Seu desejo: vingar-se com as próprias mãos. Protagonizado pela lenda Christopher Plummer (entre tantos papéis memoráveis, é quem dá a voz a Charles Muntz em Up: Altas Aventuras na versão americana), Memórias Secretas é daqueles filmes que podem bater bem fundo na gente. Com o suspense bem construído pelo diretor egípcio Atom Egoyam (de À Procura, 2014), o filme toca em elementos fundamentais da existência humana – como a dúvida – e rebate nas únicas certezas sobre a vida: todos iremos morrer e, se tivermos sorte, envelhecer antes disso. Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2015, Memórias Secretas ainda conta com o fantástico ator alemão Bruno Ganz (o Hitler de A Queda! As Últimas Horas de Hitler) e contorna todo o drama do protagonista com uma intrincada ação e um final arrebatador.

6. O Grande Truque (The Prestige)

Sendo um filme menos badalado do seu diretor – Christopher Nolan (de Dunkirk, 2017) –, O Grande Truque é meio drama e meio ficção científica recheado de mistério. Assim, com esse mistério tomando conta da atmosfera, o suspense ganha contornos bem interessantes. Há uma magia na condução desse filme que Nolan parece ter escondido em boa parte dos seus demais. Toda a sua racionalidade e uma certa pretensa exposição, aqui, jamais deixam o resultado cruzar a linha da frieza. É, sim, tudo muito calculado, mas há uma compaixão que torna as camadas mais intensas. Eu, pessoalmente, gosto muito de Nolan (com um ou outro questionamento pelo caminho) e tenho O Grande Truque como o filme de sua carreira que mais me toca.

7. Vidro (Glass)

Por mais que Vidro possua alguns diálogos expositivos – mais do que Fragmentado e se opondo completamente a Corpo Fechado –, como a desnecessária fala da Dra. Staple (Sara Paulson) explicando as ações do Sr. Vidro (Samuel L. Jackson) ao final, é, sem dúvida alguma (para mim, claro), um filme que fecha com honra uma trilogia que, agora, fica entre as mais envolventes já realizadas. Com honra e seguro de si, porque o faz de forma irreversível.

8. Verônica: Jogo Sobrenatural (Verónica)

Verônica: Jogo Sobrenatural é um terror carregado de suspense que sabe muito bem onde está pisando. Ao contrário de investir em quebras de expectativas, o corroteirista e diretor Paco Plaza (da trilogia iniciada por [REC] – fica a dica), doa-se completamente à construção delas. Há, sem dúvidas, subversões de gênero, mas o filme está mais disposto a construir um horror crescente, sem descanso, típico do cinema espanhol – algo como faz o ótimo Um Contratempo. O trabalho cuidadoso e consciente de Plaza edifica bases sólidas para o filme de uma forma única: é um terror, de fato, que traz o sempre revisitado tema da possessão demoníaca, mas é claramente realizado com muito carinho e naturalidade. Pode ser perceptível que, nem tão em segundo plano, Verônica é sobre os “monstros” que despertam durante a adolescência.

9. Operação Overlord (Overlord)

Operação Overlord diverte sem ter pretensões de ser grandioso. Perceber essa ausência de pretensão faz com que qualquer arte seja vista com outros olhos. E é esse olhar, justamente, que torna os verdadeiros filmes B (aqueles das décadas de 1930 e 1940) tão cultuados hoje e tão importantes para se entender o cinema em um contexto histórico. É provável que, em pouco tempo, Operação Overlord seja esquecido (talvez já tenha sido por muita gente), mas ele deixa mais uma sementinha plantada: nem sempre o cinema precisa ter um mundo de conteúdos para ser relevante; nem sempre o cinema precisa ter uma importância social exuberante; nem sempre o cinema precisa ser cabeça, culto e enraizado em conceitos filosóficos. Cinema é arte e, por mais que a arte não tenha a obrigação de entreter, ela pode entreter. Operação Overlord é o cinema (a arte, portanto) em uma pura, divertida e louca procura por entretenimento.

10. Feliz como Lázaro (Lazzaro felice)

Escrito e dirigido pela jovem italiana de 36 anos de idade Alice Rohrwacher (que já tem na bagagem o Grande Prêmio do Júri em Cannes por As Maravilhas, de 2014), Feliz como Lázaro é um acontecimento em 2018. Longe de causar burburinho ou ser utilizado em alguma campanha de mercado (como o foi o tão recente quanto Caixa de Pássaros – Bird Box, de 2018), o filme é genuinamente puro no seu modo de lidar com o mundo contemporâneo e as bizarras relações de trabalho e escravidão moderna. Ao mesmo tempo em que parte desse princípio de pureza – da direção de arte ao comportamento do personagem título –, Lazzaro Felice (no original) também é perturbador ao deixar vazar, em suas entrelinhas, o quão desumana pode ser a humanidade, o que é reforçado pelo lirismo de sua mise-en-scène (em uma síntese já bem resumida: tudo aquilo que aparece nas cenas e a forma com a qual cada detalhe é montado e posicionado). A atuação de Adriano Tardiolo (o Lazzaro) exala uma bondade, um desconhecimento de qualquer mal, que as adversidades impostas pelo roteiro são desconcertantes. Feliz como Lázaro é daqueles filmes para guardar no coração, na mente e na alma. Uma obra-prima longe do foco de mercado do catálogo da Netflix.

Agora, ficam aí os comentários. Foi difícil fazer uma lista tão subjetiva, mas tenho certeza que vocês podem complementar e enriquecer tudo. Vamos conversando, debatendo... E, de repente, aumentando a lista.

Fonte: Canaltech

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