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10 anos do feminejo: movimento que colocou as mulheres em destaque

·8 min de leitura

Difícil definir quem cunhou o termo “feminejo”. Mas o peso do significado do movimento, que rompeu barreiras ao colocar mulheres em evidência no sertanejo, em um mercado até então dominado por homens, está mais do que difundido. E na ponta da língua, com as centenas de músicas que falam de amores, traições, sofrência, bebedeira e superação, no lugar de fala delas, com uma visão mais realista, deixando para trás as donzelas que esperam migalhas do príncipe encantado. 

O gênero, que consagrou Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Simone e Simaria, Naiara Azevedo e tantas outras, completa uma década em 2021. Infelizmente, no mesmo ano em que perdeu a sua maior representante, a Rainha da Sofrência, em uma tragédia de avião no último mês.

"Lutei durante anos para que outras mulheres tivessem destaque no sertanejo. Quando as meninas surgiram, rapidinho percebi que ali estava nascendo um novo braço para o gênero. Elas eram diferenciadas até no palavreado, na forma de cantar o amor. Hoje, a meninada está mais incisiva. Sofre, mas a fila anda (risos). Fiquei impressionada e as aplaudi daqui, pronta para abraçá-las", relembra Roberta Miranda, uma das responsáveis por abrir caminhos no passado e citada com frequência como referência da nova geração.

A revolução das mulheres não foi algo exatamente planejado. O feminismo já estava efervescente nas discussões. E a percepção do que viria a ser um novo movimento do sertanejo foi se dando aos poucos, quando elas eram paradas para refletir em entrevistas à imprensa, por exemplo, sobre as novas mensagens que estavam passando nas letras. 

Hoje, pesquisadores apontam que a primeira fagulha do que estava por vir se deu com Naiara Azevedo, em 2011, quando ela lançou a música “Coitado”, uma paródia em resposta a “Sou foda”, funk considerado machista do grupo Os Avassaladores. Nos bastidores, os escritórios que gerenciavam as carreiras dos grandes nomes do então sertanejo universitário, que já dominavam o mercado musical no país, começavam a se impressionar e abrir as portas para compositoras mulheres, que mais tarde dariam as caras para o grande público.

"A música da Naiara era bem-humorada, provocativa, com uma visão feminina a uma letra machista. Isso é um mote do feminejo. Atualmente, todo escritório tem uma compositora ou uma cantora, uma mulher, mas é triste pensar que demorou a acontecer. Antes, eram casos isolados. E isso vira a chave, muda a perspectiva até mesmo quando colocavam os homens para cantar essas composições. Além disso, nos shows, o público feminino era massivo, e o mercado começou a perceber: por que não cantar para elas?", diz a pesquisadora Damiany Coelho, autora de “O ‘femi’ do feminejo”.

Houve também insistência. A própria Marília, que compunha desde os 12 anos, ouviu bastante “que não era o momento”, até se lançar em 2014 como cantora. O estouro veio dois anos depois, com o lançamento de um DVD homônimo, embalado pelo hit “Infiel”. Tornou-se a cantora mais ouvida do país. No mesmo ano, Maiara e Maraisa também subiram no pódio, com “10%”. Abriu-se a porteira para o sucesso e essas, e outras artistas, passaram a figurar ano após ano nos topos das paradas.

"Em 2015, Marília já tinha uma carreira consolidada como compositora, com sucessos nas vozes de grandes nomes, como Jorge & Mateus, mas o mundo não conhecia ainda a sua potência como cantora. A Som Livre logo enxergou o seu talento, com apenas 19 anos, e a trouxe para o cast da casa como aposta do ano. Em menos de seis meses, ela mostrou a que veio com um repertório que apresentava letras que falavam abertamente, e em primeira pessoa, sobre os sentimentos das mulheres, o que causou uma imensa identificação com o público feminino e com uma nova geração. E daí por diante virou esse fenômeno. No “boom” do mercado que se abriu para mulheres, e com o aval do público, investimos em outras artistas, como Maiara e Maraisa, e outras que seguem com carreiras consolidadas até hoje, provando que o que faltava era aceitação, pois talento elas têm. O nosso desejo é que esse cenário continue crescendo, de igual pra igual, e revelando ainda mais estrelas", analisa Tatiana Cantinho, diretora de artístico e repertório da Som Livre.

Assim como já acontecia no meio sertanejo, a colaboração entre as artistas foi fundamental para sedimentar o gênero. Naiara Azevedo e seus “50 reais” são uma parceria com Maiara e Maraisa. As gêmeas mato-grossenses também se destacaram ao dividir com Marília Mendonça o show “As patroas”, que mais tarde se tornou CD, com um volume 2 lançado em outubro deste ano. Os números superlativos comprovam que a união faz mesmo a força.

"Juntos, os perfis de Marília Mendonça e Maiara e Maraisa no Spotify somam mais de 22 milhões de ouvintes mensais. O álbum “Patroas 35%”, lançado no dia 14 de outubro, acumula mais de 120 milhões de plays. O single “Esqueça-me se for capaz” já passa das 60 milhões de visualizações no YouTube. Isso sem contar shows lotados, recordes e prêmios", diz a diretora da Som Livre.

Tamanho alcance não deixa de inspirar novos talentos da música.

"Com certeza, o feminejo abriu portas para a minha carreira. Já existiam mulheres no forró, claro, como Solange Almeida, mas, depois que as mulheres se destacaram no sertanejo, acho que todas nós passamos a receber um olhar diferente do mercado. As dificuldades ainda existem, mas a resistência é menor. O mundo está evoluindo e nos dando espaço. Marília é minha inspiração. Foi a realização de um sonho conhecê-la ", diz Mari Fernandez, de 20 anos, primeira mulher na pisadinha, apelidada de Marília do Piseiro.

 A fagulha do feminejo

Até mesmo entre as cantoras representantes, não foi instantâneo perceber que o que elas estavam lançando fazia parte de algo que se tornaria um novo movimento no sertanejo. Naiara Azevedo que nos diga. Em 2011, quando estava começando a se profissionalizar na música, a paranaense, então com 22 anos, decidiu fazer uma resposta à letra machista de “Sou foda”, dos funkeiros Os Avassaladores. Nasceu “Coitado”, em que a mulher tomava o protagonismo, falava de sexo e desdenhava do cara que se achava o garanhão. O vídeo da canção ganhou mais de 30 milhões de visualizações em duas semanas. Hoje, é visto como a fagulha do feminejo.

Com o lançamento de “Coitado”, você tinha consciência de que estava trazendo uma nova perspectiva para o sertanejo?

Hoje, sim, mas na época, não. Escrevi “Coitado” quando ouvi uma música que tratava a mulher como um nada, que podia ser usada e descartada. Quando vi o sucesso no YouTube e nas web rádios, percebi que poderia ter meu espaço no mercado, mesmo sendo mulher. Eu estava começando a me profissionalizar, ao mesmo tempo em que estava terminando minha pós-graduação (na área de estética). Tinha prometido a meus pais que entregaria o diploma (risos), e depois seguiria com o que queria, que era a música. Só queria realizar meu sonho. E segui meu instinto.

Quando se percebeu como parte do movimento?

Quando realmente estourei com a música da minha vida, “50 reais” (2016). No fundo, eu só estava buscando fazer o melhor para a minha carreira. Aos poucos, passei a ser abordada em entrevistas sobre a minha opinião a respeito do movimento. Assim, fui entendendo a grandiosidade do que estava acontecendo e até adquirindo novas visões.

Qual a importância do feminejo?

Foi uma virada de chave no mercado. E uma esperança, uma luz para as mulheres que sonhavam com essa carreira e era algo muito distante. Hoje, as portas estão abertas para quem quer que seja, de todas as idades. Quebramos uma barreira.

Vocês trouxeram uma mudança de linguagem, ao colocar a mulher que bebe, é chifrada, é amante... Como se sente por poder cantar desse lugar?

Sou uma mulher de muita personalidade e nunca tive papas na língua. Coloco nas músicas a pessoa que sempre fui. E fico muito honrada em poder dar voz aos sentimentos de tantas mulheres. A gente ama, bebe, dança intensamente. Damos nossa versão da história com jeitinho, mas também falando na lata. Minha conversa, por exemplo, não tem curva (risos). O sucesso do feminejo está aí, com a mulherada se identificando com nossa força, por ser tão forte como nós.

Há quem credite como mais um fator de sucesso do gênero o apoio que vocês, cantoras, dão umas para as outras. Existe, de fato, uma amizade entre vocês para além da relação profissional?

Sim. Nossa relação é de muita cordialidade, carinho e respeito. Nunca vi ninguém falando mal de ninguém. Pelo contrário. Quando uma lança algo, a gente divulga, posta nas redes, abraça. Da minha parte, faço tudo o que também desejo para mim.

Você está para lançar uma música com Marília Mendonça. Depois da infeliz tragédia, sua relação com essa canção mudou?

Acho que, como todo mundo, a minha ficha ainda não caiu. Lidar com uma perda irreparável não é fácil. Marília e eu gravamos essa música há mais de um ano. A data de lançamento é algo definido pelas gravadoras e já estava previsto para janeiro do ano que vem. A expectativa para o lançamento é a mesma de sempre. Por mim, já tinha saído. Eu só quero levar a música sertaneja adiante. E meu coração só tem gratidão por Marília ter aceitado o convite e ter sido tão incrível comigo.

 

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