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10 anos do feminejo: Marília Mendonça teve 'horário comercial' para compor; relembre a trajetória da artista mais ouvida do Brasil

·5 min de leitura

A história do feminejo definitivamente não seria a mesma sem Marília Mendonça. Ou talvez nem tivesse existido sem a cantora e compositora, que morreu tragicamente no início de novembro, aos 26 anos, num acidente de avião. Se o marco do subgênero do sertanejo foi com a paródia “Coitado”, de Naiara Azevedo, em 2011, para um funk machista, foi o sucesso da Rainha da Sofrência que consolidou a força das mulheres no topo das paradas.

— A grande figura do feminejo foi realmente a Marília, e com “Infiel” (2016), que é um estouro. É quando realmente as pessoas começam a reparar no movimento. Essa música que dá liga ao feminejo, e também à carreira da Marília como um todo — destaca a pesquisadora Damiany Coelho, autora de “O ‘femi’ do feminejo — A presença da mulher na música sertaneja”, lembrando ainda que, antes de Marília se lançar como cantora, ela já havia revolucionado o mercado como compositora de grandes nomes do sertanejo: — Ela ficava chateada por não despontar logo. Era era conhecida como máquina de hits. No início, havia o receio de lançá-la como intérprete e perder uma compositora de tantos sucessos, houve esse dilema.

Mas o talento para escrever canções não veio sem o suor e a perseverança da jovem menina de Cristianópolis, no interior de Goiás. Marília compôs exaustivamente até desenvolver uma habilidade invejável no mercado fonográfico brasileiro. Em abril deste ano, no “Mais você”, a artista contou a Ana Maria Braga: “Passei um ano compondo em horário comercial. Eu e Juliano Tchula, meu parceiro da maioria das composições, nos encontrávamos às 8h da manhã, e ele me deixava em casa às 18h. Todos os dias, tendo tema para compor ou não, a gente ficava lá, um olhando para a cara do outro”.

Não foi fácil, mas a Rainha da Sofrência conseguiu conquistar seu espaço e imprimir sua visão na música sertaneja quando ainda nem tinha um rosto conhecido pelo grande público, mudando a perspectiva das letras de canções que faziam sucesso na boca dos homens.

— Marília Mendonça, assim como Maiara e Maraisa, escreveu músicas para homens falarem coisas que mulheres gostariam de ouvir. Não só no comportamento, mas no sentido de cuidar e querê-la por perto. A gente se via muito em músicas de grandes artistas masculinos, aí quando você pesquisava, percebia que era a composição de uma mulher. Então dá para entender o porquê dessa mudança brusca. Antes, o cara falava que deixava a mulher em casa e que ia beijar e trair. Aí vem, por exemplo, “Cuida bem dela”, com visão totalmente oposta — explica a cantora May, da dupla May e Karen.

A canção citada, de 2014, fez sucesso com Henrique e Juliano, mas é uma composição de Marília, em parceria com Maraisa, Juliano Tchula e Daniel Rangel. Foi também nessa época que Marília lançava o seu primeiro EP homônimo. A partir dali, sua ascensão foi meteórica. Em poucos anos, conseguiu números expressivos até internacionalmente. Um deles foi a live musical mais vista na história do YouTube, com 3,3 milhões de acessos simultâneos, em maio de 2020. Outra foi em janeiro deste ano, quando ultrapassou os Beatles em número de seguidores no Spotify, atingindo 18,5 milhões (atualmente, ela tem cerca de 22 milhões, e a conta dos rapazes de Liverpool, 21 milhões). Sua força também inspirou e impulsionou outras artistas mulheres.

— Quando comecei a tocar violão e cantar e percebi que queria trabalhar com isso, foi na época em que Marília, Maiara e Maraisa estouraram. Por serem mulheres, elas acabaram me inspirando. Depois, Marília foi se tornando a artista mais importante pra mim — recorda a cantora Mari Fernandez, de 20 anos, que foi apelidada de Marília do Piseiro.

Os altos números conquistados em tão pouco tempo não fizeram a cantora se acomodar. Um exemplo disso é o projeto “Todos os cantos”, disponível no Globoplay, quando a Rainha da Sofrência viajou para várias cidades brasileiras com shows gratuitos.

— Marília revolucionou não só o universo do sertanejo, mas todo o cenário musical com esse projeto. O plano, até então interrompido pela pandemia, era rodar o Brasil inteiro, chegando de surpresa para cantar em praças públicas. Em Belo Horizonte, foi um de seus maiores públicos, ela reuniu mais de 100 mil pessoas em apenas algumas horas — destaca Tatiana Cantinho, diretora de artístico e repertório da Som Livre.

Esta característica da artista em se preocupar primeiramente com o público a fez conquistar o topo dos rankings. Mas, acima de tudo, lhe deu uma conexão única com os fãs. Em entrevista ao EXTRA, em maio deste ano, Marília traduziu isso, ao falar sobre futuros recordes:

— Nunca me preocupei em bater recordes, mas tenho metas a atingir com meu trabalho, sim. Sou o tipo de pessoa que gosta de produzir e fico sempre muito atenta a como meu público reage aos meus lançamentos. Procuro trazer temas e histórias diferentes, raramente ouço minhas músicas e, quando quero me inspirar, ouço outros ritmos, para não cair na mesmice. Acho fundamental buscar conexão com as pessoas. Quando isso acontece, reflete nos números.

Legado da rainha

Novas gravações

Marília deixou músicas gravadas com Naiara Azevedo, Ludmilla, a mexicana e ex-RBD Dulce María e as duplas Hugo e Guilherme e Guilherme e Santiago. Com Dom Vittor e Gustavo (este, irmão da Rainha da Sofrência), ela gravou “Calculista”, lançada neste fim de semana.

Mais composições

Há mais de 300 canções da Rainha da Sofrência registradas e que ainda não foram gravadas e lançadas. Além disso, foi encontrado no avião do acidente um caderno onde Marília anotava ideias e letras de música.

A maior

Marília se tornou a artista mais ouvida do Brasil no Spotify em 2019, repetindo o feito em 2020. Na mesma plataforma, ela também foi a artista mais ouvida no mundo, no dia seguinte a sua morte, somando 28,6 milhões de reproduções. Na Deezer, ela conta com quase 10 milhões de fãs e o seu principal público está na faixa etária de 26 a 35 anos, com 42,15% de seus ouvintes.

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