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A única pessoa a ser atingida por um meteorito teve a vida arruinada por isso

Felipe Junqueira

Ann Elizabeth Hodges tirava um cochilo no sofá de sua sala, na casa em que morava na cidade de Sylacauga, Alabama, por volta das 14h26 no horário local, quando um barulho alto a acordou. Ela e sua mãe demoraram a entender o que havia acontecido. Sua casa estava coberta por poeira, então elas inicialmente acharam que a chaminé desabara e quebrara o rádio. Mas o que seria aquela pedra no chão?

Enquanto tentava compreender o que havia acontecido, Ann notou um gigantesco hematoma no lado esquerdo de seu corpo. Então, ela e sua mãe chamaram a polícia e o departamento de bombeiros. Com a chegada das autoridades, uma multidão começou a se aglomerar na frente da casa, compreendendo que algo grande estava acontecendo.

A cidade foi surpreendida, minutos antes, por um clarão avermelhado que rasgou o céu, a uma impressionante velocidade de cerca de 200 km/h. Mais tarde, apareceram relatos de que o mesmo clarão fora avistado em cidades na Georgia e no Mississipi. Muita gente achou que seria um acidente de avião, e procurava o local da queda. Mas o fato de a casa onde aparentemente aconteceu o impacto ainda estar de pé começou a levantar dúvidas na história.

De fato, não era nem avião e nem a queda de uma chaminé. O que cortou o céu foi um meteoro, e o que entrou com estrondo na sala da casa dos Hodges era um meteorito. Após abrir um buraco do teto, a rocha ainda ricocheteou no rádio da sala e bateu no lado esquerdo do corpo de Ann, deixando o imenso hematoma e uma marca que a seguiu pelo resto de sua vida. Com isso, ela se tornou primeira e única pessoa até hoje registrada oficialmente como vítima direta de um meteorito — algo que tem apenas uma chance em 1.600.000 de acontecer.

Mais raro que ser pego por tornado, furacão e raio ao mesmo tempo

O hematoma no lado esquerdo do corpo de Ann Hodges (Foto: University of Alabama Museum of Natural History)

De acordo com o astrônomo Michael Reynolds, em uma entrevista à National Geographic, “você tem mais chance de ser atingido por um tornado, um raio e um furacão ao mesmo tempo” do que por um meteorito. Não que a queda desses objetos celestes seja incomum: calcula-se que 17 meteoritos caiam na Terra todos os dias, geralmente no oceano ou em regiões afastadas.

Em 2013, um objeto caiu com uma forte explosão na região dos Montes Urais, na Rússia, deixando ao menos 1.000 pessoas feridas. Porém, nenhuma pelo impacto direto. Os ferimentos foram causados por estilhaços de janelas e estruturas que ruíram com o impacto. Em 10 de novembro deste ano, outro meteorito rasgou o céu de estados na região central dos EUA. A NASA estima que foi uma pedra do tamanho de uma bola de basquete deixada para trás por um asteroide. Nesse caso, apesar dos inúmeros vídeos na internet, o meteorito não feriu ninguém.

Existe um acidente fatal envolvendo outro meteorito. Em 1972, uma vaca na Venezuela foi atingida por uma rocha extraterrestre e não resistiu aos ferimentos. Existem, até, outros relatos não confirmados de pessoas que teriam sido atingidas por meteoritos, mas apenas o caso de Ann foi oficialmente confirmado. No entanto, não há registro de ninguém que tenha sido pego pelos três fenômenos naturais citados por Reynolds ao mesmo tempo.

"Noventa e nove por cento dos meteoritos vêm do cinturão de asteroides entre Marte e Jupiter", explicou Cari Corrigan, geologista pesquisadora do Museu de Arte Natural Smithsonian. "Acreditamos que muitos possuem materiais muito similares com os que formaram a Terra", disse. O meteorito de Sylacauga, como ficou conhecido o objeto, foi identificado como um condrito, composto por mais ferro e níquel do que rochas terrestres.

Batalhas pelo meteorito

O meteorito de Sylacauga está exposto no Museu Smithsonian, nos EUA (Foto: NMNH)

Na hora do acidente, Ann estava deitada porque não se sentia muito bem. Mal sabia que aquele pequeno mal estar era apenas o começo de seus problemas. Seu marido, Eugene, chegou em casa no final do expediente daquele dia e só então ficou sabendo que algo de tamanha importância acontecera em seu lar. Ele estranhou a multidão em frente à sua casa, que ficava, curiosamente, em frente a um cinema drive-in chamado The Comet (“O Cometa”).

“Tivemos um pouco de animação por aqui hoje”, disse Ann à Associated Press. O burburinho foi tamanho que só no dia seguinte ela foi levada ao hospital para chegar se o hematoma não era algo mais sério. “Não consegui dormir desde que fui atingida”, explicou ela à imprensa.

Enquanto isso, as autoridades exigiam que o meteorito fosse entregue para análise de especialistas, que deveriam determinar se era, realmente, um objeto vindo do espaço. As autoridades garantiram que a rocha seria devolvida posteriormente. As pesquisas detectaram que se trava de uma rocha interplanetária de cerca de 4,5 bilhões de anos.

De volta às mãos do casal Hodges, o meteorito iniciou uma nova batalha: quem era o verdadeiro dono do objeto? Acontece que os Hodges moravam de aluguel, e a dona da casa reivindicava para si a propriedade do objeto. Antes que uma batalha judicial fosse iniciada, os Hodges fizeram um acordo e pagaram U$ 500 para ficar com a rocha de cerca de 4 kg.

O meteorito em detalhes (Foto: NMNH)

A disputa com a proprietária da casa durou cerca de um ano. Quando foi encerrada, Eugene já não conseguiu mais encontrar um comprador para o meteorito, que acabou sendo usado por anos como batente de porta, até ser finalmente doado para o Museu de História Natural do Alabama e exposto com o nome de Meteorito de Sylacauga — mas também é chamado de Meteorito dos Hodges.

Ann jamais se recuperou completamente do choque com o meteorito, e o fato de ter se tornado uma espécie de subcelebridade da era pré-internet não ajudou. Ela foi capa da revista Life em 13 de dezembro de 1954, sob o título Um grande hematoma do céu. Acredita-se que a atenção nacional que Ann passou a receber piorou o estado de sua saúde mental e, consequentemente, seu casamento também se deteriorou, com o casal se divorciando em 1964. Aos 52 anos, Ann morreu em uma casa de repouso por consequência de uma insuficiência renal.

A outra metade do objeto

Os Hodges jamais conseguiram lucro com o meteorito que caiu na casa onde moravam, mas a outra metade do objeto teve história completamente diferente. O fazendeiro Julius Kempis McKinney encontrou a rocha enquanto andava com sua carroça movida a mula.

Inicialmente, ele não deu atenção à pedra que atrapalhava o caminho. Mais tarde, ao ver no noticiário a história dos Hodges, ele retornou ao local e coletou o meteorito. O fazendeiro então entrou em contato com um advogado, que o ajudou a anunciar a venda desse estranho objeto de origem espacial.

Diferente de Eugene Hodge, McKinney foi bem sucedido em sua empreitada. Segundo reportagens da época, o dinheiro que ele conseguiu foi suficiente para comprar uma casa e um carro. Posteriormente, a rocha foi doada ao Museu Smithsonian, onde permanece até hoje.

Em 2017, um pedaço desse meteorito foi vendido pela Christie’s, empresa famosa no ramo de leilões. Com o tamanho de uma moeda de dez centavos de dólar, o pedaço de rocha rendeu US$ 7.500, em um impressionante valor de US$ 768 por grama. Na época, um grama de ouro de 24 quilates era avaliado em US$ 39,05. Trata-se de um dos objetos mais bem avaliados da história.



Fonte: Canaltech

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