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Ômicron, alta de juros e falta de insumos preocupam construção civil

·3 min de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O setor da construção civil começa o ano de 2022 diante de um pacote de preocupações com potencial para manter o crescimento do setor na faixa dos 2%, um avanço morno diante dos 8% estimados para 2021, informou nesta quinta-feira (13) o Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil em São Paulo).

Apesar dos resultados positivos registrados do ano passado, o presidente da entidade, Odair Senra, diz considerar que faltou a "retomada robusta da economia e da atividade pós-pandemia". Faltaram também, segundo ele, as grandes reformas estruturais com condições de atrair investimentos.

A chegada do ano eleitoral, por um lado, enfraquece o clima político para reformas, mas, por outro, resulta em um esforço para fazer andar obras de infraestrutura nos estados, o que é visto como positivo pelo setor.

Eduardo Zaidan, vice-presidente de economia do Sinduscon-SP, diz que, por enquanto, a variante ômicron –a quem se atribui o aumento expressivo de casos positivos de Covid-19– ainda não chegou aos canteiros de obras, mas preocupa o setor pelo possível efeito sobre o abastecimento de matérias-primas.

"Ainda é difícil medir o real impacto nas obras hoje, 13 de janeiro, porque muita gente saiu para o fim do ano e não voltou ainda. Por enquanto, nos canteiros a variação não é tão grande como foi em março e abril de 2020, quando chegamos a ter 30% [dos trabalhadores] afastados", afirma.

O custo de matéria-prima e a escassez de materiais e equipamentos ainda assombram o setor de construção. "Ainda é cedo para avaliar esse impacto, mas é mais um fator para atrapalhar a produtividade. Ainda há demora excessiva em entregas", diz Zaidan.

O dirigente afirma que apesar de haver deflação em muitos produtos usados nas obras, para o mercado houve apenas uma estabilização em patamar menor. Ou seja, o preço caiu em relação ao pico, mas não retornou ao nível do pré-pandemia.

Alguns produtos, como cerâmicas, ainda levam cerca de 90 dias para serem entregues. Antes das rupturas nas cadeias de abastecimento com o início da pandemia, a espera era de até 30 dias e havia até quem tivesse produto em estoque. "Ainda sofremos muito com a desorganização da logística", afirma o vice-presidente de economia do Sinduscon-SP.

Para este ano, Zaidan diz que as construtoras têm contratos a cumprir, o que deve manter a atividade do setor em bom nível.

O mercado imobiliário vendeu bem em 2021, ainda colhendo os frutos dos juros baixos, que ampliaram as condições de crédito para os compradores. Os milhares de imóveis lançados e vendidos no ano passado serão construídos agora. O que vem depois desse ciclo já não é tão claro para o setor.

Até novembro, dado mais recente compilado pelo Secovi-SP (sindicato da habitação), 66 mil unidades residenciais haviam sido vendidas em 12 meses, alta de 33,6% ante o ano anterior.

Para Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do FGV/Ibre (Instituto de Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a elevação dos juros, a queda no rendimento médio do brasileiro e a maior percepção de incertezas são fatores de atenção nas atividades de construção neste ano.

Outro fator de estresse para a construção tem sido a falta de mão de obra qualificada, que poderá exigir investimento das empresas. "Pode parecer um paradoxo faltar mão de obra quando há tanto desemprego, mas é uma questão que mexerá na dinâmica de custo", diz a pesquisadora.

O emprego formal na construção civil acumulou 245,9 mil vagas criadas nos 12 meses até novembro de 2021, o equivalente a 8,7% do saldo positivo do ano passado. Apesar da melhora nas posições com carteira assinada, houve queda de 8,7% no rendimento real.

Para Ana Maria Castelo, essa redução reflete a mesma dinâmica do mercado de trabalho como um todo, no qual o aumento da informalidade reduz a desocupação, mas também achata os salários. Pelo menos parte dessa informalidade, na construção, vem das obras domésticas, que o setor chama de autoconstrução.

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