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'É difícil relatar, é uma imagem muito forte', diz bombeiro sobre resgate na Kiss

·2 min de leitura
***ARQUIVO***SANTA MARIA, RS, 16.01.2018 - Interior da boate Kiss, em Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, cinco anos depois do incêndio que deixou 242 mortos. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***SANTA MARIA, RS, 16.01.2018 - Interior da boate Kiss, em Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, cinco anos depois do incêndio que deixou 242 mortos. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - O coronel Gerson da Rosa Pereira, ex-chefe do Comando Regional dos Bombeiros de Santa Maria (RS), disse que nunca esqueceu as cenas que viu durante o resgate do incêndio da boate Kiss, em 27 de janeiro de 2013.

A declaração foi dada nesta segunda (7) durante o depoimento do militar no julgamento sobre os 242 mortos e as centenas de pessoas feridas daquele dia.

Pereira disse que encontrou muita gente perdida do lado de fora da boate no dia do incêndio, como em devaneio, pessoas em busca de informações e outras querendo ajudar, em meio a viaturas de forças de segurança, disse em relato ao juiz Orlando Faccini Neto.

O magistrado perguntou se ele conseguiria descrever o que viu dentro da boate e se ainda havia possibilidade de encontrar pessoas com vida quando entrou no local.

"Não, não tinha mais. Eram só as vítimas", disse com a fala entrecortada pelo choro. "Não tem como relatar, doutor. É difícil relatar. É uma imagem muito forte. Até para um profissional de segurança é muito forte. Não tem condições, eu até preferia não descrever isso".

O coronel é a 23ª pessoa ouvida no júri que já dura sete dias, em Porto Alegre, e se tornou agora o mais longo do Judiciário gaúcho, passando o do caso do menino Bernardo Boldrini, em 2019. Atualmente, ele é diretor do departamento administrativo do Corpo de Bombeiros, na capital gaúcha.

Quatro réus são acusados por homicídio e tentativa de homicídio simples por dolo eventual --Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, sócios-proprietários da boate, e os integrantes da banda, Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista) e Luciano Bonilha Leão (assistente de palco).

Pereira contou que foi responsável por organizar as operações pós-tragédia. Ele disse que, quando recebeu a notícia do incêndio, achou que era algo que fugia da normalidade, mas, quando foi informado que haveria cerca de 30 mortos, a situação ficou mais tensa --no fim, ele disse que encontrou uma situação ainda mais difícil do que imaginava.

Para o bombeiro, as pessoas morreram de maneira instantânea dentro da Kiss, apontando entre as principais causas asfixia mecânica (pela compressão contra outros corpos) e asfixia tóxica, especialmente pela inalação da fumaça.

"De uma coisa eu tenho certeza, não foram vítimas de incêndio, porque o incêndio carboniza", afirmou.

"Foi da inalação do gás emitido por aquela espuma que incendiou no dia, parece que composta de cianeto, um gás letal conhecido historicamente muito empregado nos campos de concentração, no período nazista", pontuou.

Ele disse não saber precisar qual foi exatamente a origem do incêndio e explicou que extintores podem falhar por problemas de recarga, mas também por desconhecimento do uso correto.

Questionado sobre os processos movidos pelos bombeiros ligados ao caso, ele afirmou que muitos precisaram de tratamento, inclusive, psiquiátrico --o próprio Pereira sofreu com estresse pós-traumático.

Outras duas pessoas foram ouvidas nesta terça até o momento, o sonorizador Venâncio da Silva Anschau e a arquiteta Nivia da Silva Braido.

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