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Água de Marte está escapando ao espaço — e a culpa é das tempestades de poeira

Danielle Cassita
·3 minuto de leitura

A ideia de que Marte já teve oceanos e rios com água líquida não é recente, e existem evidências no planeta que reforçam essa hipótese — só que, se não há mais tanta água por lá, grande parte do líquido deve ter desaparecido. Um possível cenário que explica este processo seria a água ter sido perdida para o espaço em um passado bem distante. Agora, um novo estudo sugere que as tempestades de poeira que varrem o planeta e ameaçam missões científicas, como aconteceu com o rover Opportunity, podem ter papel significativo neste processo, e teriam contribuído para transformar Marte no mundo árido que é hoje.

O Planeta Vermelho guarda rios fossilizados e vestígios de deltas em sua superfície, o que sugere que a água correu por lá no passado. Assim, os cientistas vinham considerando que a principal causa para da perda da água seria um processo causado pela luz ultravioleta, capaz de separar as moléculas de água nas camadas mais baixas da atmosfera marciana que, assim, acabam escapando para o espaço. Para completar, uma névoa de hidrogênio que surgiu após uma tempestade de areia e desapareceu com o fim do verão marciano no hemisfério sul, em 2007, acendeu o alerta para algo estranho ocorrendo por lá.

Agora, uma nova análise dos dados da sonda Mars Atmosphere and Volatile Evolution (MAVEN), da NASA, feita pelo graduando Shane Stone, indica que existe um processo mais eficiente para a retirada da água do planeta: com os dados de uma intensa tempestade de areia que ocorreu no planeta em 2018, ele observou que, enquanto a poeira rodopiava a altitudes mais baixas, havia uma grande quantidade de água alcançando o limite do espaço. “Foi realmente um tapa na cara”, diz Stone. “A tempestade de poeira global tem destaque sem igual nos dados”.

Representação da perda da água de Marte para o espaço (Imagem: Reprodução/NASA/Goddard)
Representação da perda da água de Marte para o espaço (Imagem: Reprodução/NASA/Goddard)

Junto de seus colegas, Stone descobriu que existe um padrão sazonal para o fenômeno — a atmosfera superior do planeta conteve mais água quando Marte esteve mais perto do Sol ou quando ocorreram essas grandes tempestades de poeira. Então, o aquecimento atmosférico causado por estes eventos faz com que a água vá ainda mais alto no ar marciano. Para a equipe, existe também um mecanismo com participação significativa causado pelo dióxido de carbono, que fica ionizado pelas partículas do vento solar que bombardeiam a atmosfera e separam as moléculas de água.

Quando alcança a atmosfera superior, a água deve ter sido separada por interações com partículas carregadas; depois, o hidrogênio e oxigênio resultantes flutuariam livremente para o espaço. Esse processo ocorre 10 vezes mais rapidamente do que aqueles que acontecem na atmosfera mais baixa do planeta — tanto que os pesquisadores calcularam que, ao longo dos últimos bilhões de anos, a atmosfera de Marte pode ter permitido um "vazamento" de água que seria suficiente para cobrir a superfície do planeta com um oceano com 25 m de profundidade.

Apesar de essa não ser uma explicação completa do porquê de Marte ser tão mais seco hoje do que era há bilhões de anos, é um avanço. "Marte deve ter perdido o equivalente de um oceano global de dezenas a centenas de metros de profundidade em toda a sua história", diz Stone. "Se não fosse por esses processos de escape, teríamos um planeta mais quente e úmido bem ao nosso lado".

Para ele, o processo pode ser recente ou pode ter ressecado o planeta há bilhões de anos; os pesquisadores acreditam que o planeta já teve um campo magnético falho em seu início, que permitiu que o vento solar entrasse na atmosfera bem onde as tempestades globais de poeira ocorriam e colocavam a água em perigo, e isso pode ter iniciado a perda de água. Para Michael Cheffin, cientista planetário que liderou o estudo, a MAVEN pode estar testemunhando o “fim de uma espiral da morte planetária”.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Science.

Fonte: Canaltech

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