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Agrotech e alimentação: a população brasileira não está comendo

Agrotech e alimentação: estudo indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050, apenas para alimentação da população. Foto: Getty Images.
Agrotech e alimentação: estudo indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050, apenas para alimentação da população. Foto: Getty Images.
  • Produção nacional de grãos saltou de 186,7 milhões de toneladas para 255,5 milhões, mas a abundância não se refletiu nos preços dos alimentos;

  • O total de 33 milhões de brasileiros vivendo com fome revela que o Brasil não consegue fazer os grãos chegarem à mesa dos seus cidadãos;

  • Estudo indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050, apenas para alimentação da população.

Aliar democracia e alimentação não é uma tarefa fácil. Diante da insegurança alimentar no Brasil - parcela de brasileiros que não teve condições para se alimentar no último ano subiu de 30%, em 2019, para 36%, em 2021, conforme divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Social - cresce o desafio de levar alimentos e bebidas de qualidade para a mesa dos brasileiros.

Desde que o boom das agrotechs começou, há cerca de seis anos, a produção nacional de grãos saltou de 186,7 milhões de toneladas, para 255,5 milhões, uma alta de mais de 36% entre as safras de 2015 e 2021, segundo dados da Conab. Porém, o que deveria ser um dos principais objetivos quando pensamos em alimentação brasileira não fecha a conta: a abundância não se refletiu nos preços. No mesmo período, o preço dos alimentos aos brasileiros subiu 62%, acima dos 50% de altas somadas do IPCA.

Na esteira da alta dos preços e crise econômica em decorrência da pandemia, o total de 33 milhões de brasileiros vivendo com fome revela que, apesar do crescimento da produção de grãos, o Brasil não consegue fazê-los chegar à mesa dos seus cidadãos, o que levanta a questão se as startups do agro serão a solução para o problema.

Quanto comer carne custa ao mundo?

A produção de carne é uma das atividades mais intensas e que mais demandam recursos na economia global. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura estimam que quase 30% de toda área mundial é utilizada para a produção de gado, pastagens e ração. Em comparação, a área utilizada por outros plantios é de 7%, enquanto a ocupada por centros urbanos, cidades e outras formas de infraestrutura é de apenas 1%.

Esse número já demonstra o desafio que é alimentar o planeta com proteína animal, seja carne de vaca, frango, peixe, carneiro e ovos. Nos últimos anos, no entanto, com a ascensão da classe média em países da África e da Ásia, especialmente a China, aumentou ainda mais a demanda do setor agropecuário mundial, que se vê com um número de consumidores que aumenta mais e mais com o passar dos dias.

Sem carne animal

O investimento em mais pesquisas nessa área se torna essencial, já que a demanda por alimentos sustentáveis só tende a aumentar, seja pela consciência dos consumidores ou por uma necessidade mundial. A Embrapa publicou um estudo que indica que a produção agrícola global precisa crescer 70%, até 2050, apenas para alimentação da população, que deve chegar a 9,7 bilhões de pessoas, sem contar na necessidade de biocombustíveis e nas mudanças climáticas que podem limitar a produção.

“A preocupação é se vai ter comida e água para todo mundo (...) A capacidade de produção de proteínas de base vegetal é mais eficiente do que a de proteína animal. Esse espaço do vegetarianismo, do veganismo, ele vem a corroborar para que a gente tenha uma estratégia de aporte protéico e que também a gente tenha uma alimentação mais sustentável”, comenta André Dutra, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Alguns movimentos, como o Segunda Sem Carne, colaboram para a redução do consumo de proteína animal. Uma pesquisa do Ipec (2021), a pedido da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), aponta que 46% da população brasileira deixa a carne de lado ao menos uma vez por semana e que um terço da nação busca opções veganas em seus cardápios.

A NoMoo, empresa com foco em plant-based (tradução direta: à base de plantas), entra como ferramenta essencial neste processo: é uma das pioneiras no preparo de leite vegetal, seu carro chefe. "[O preparo] Envolve um processo mais científico do que tecnológico. Não temos robôs, temos um grupo de guerreiros que fazem nosso queijo", declara o CEO da foodtech, Marcelo Doin.

Cerca de 35% da população brasileira com idade acima de 16 anos tem algum tipo de desconforto digestivo após o consumo de derivados de leite, segundo pesquisa do Datafolha. Uma das apostas da empresa é cobrir os intolerantes a lactose, criando alternativas alimentares para esse público com base nos vegetais nacionais.

Para quem não conhece, o conceito de plant-based utilizam alta tecnologia e processamento industrial para aproximar os vegetais do sabor e da textura do alimento à base animal. Os alimentos plant-based foram consumidos nos últimos seis meses por 81% dos entrevistados de uma pesquisa realizada pela Cint/Mercy for Animals (MFA).

A saúde é uma das três principais motivações para adotar os alimentos à base de planta para 97% dos entrevistados brasileiros; para 78% das pessoas ouvidas, esse foi o motivo principal para iniciar uma dieta com produtos vegetais.

Dion defende que a democratização da modalidade alimentar é essencial, e exemplifica o público que não pode consumir leite de origem animal, por exemplo. "São 80 milhões de intolerantes, e não estão apenas nas classes A e B. Devemos estar preocupados com as classes C e D", argumenta o CEO.

"O leite vegetal também é agro"

Uma das iniciativas da foodtech é pressionar governos para incluir benefícios fiscais dados ao leite de origem animal para o leite vegetal. "Também é agro. Estamos falando da castanha do Brasil, do óleo de côco, e uma série de insumos nacionalizados que usamos, e feitos a base de plantas, também são agro e beneficiam o Brasil", esclarece.

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