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Fábrica de chocolate no Pará

Foto: Anderson Coelho/Agência PLANO

A mulher que fez do cacau da Ilha do Combu, em Belém, o mais disputado do Brasil

Por Rosana Pinheiro, da Agência PLANO

Um grupo de visitantes se acomoda aos pés de uma Sumaúma, árvore conhecida como rainha da floresta. “Estamos em um cacaual centenário. Foi aqui onde tudo começou”, diz Izete dos Santos Costa, mais conhecida como Dona Nena, a mulher que transformou o cacau da Ilha do Combu, em Belém do Pará, no chocolate mais fino do país.

Desde 2014, quando o chocolate 100% orgânico feito no quintal da Dona Nena caiu nas graças de chefes renomados como Thiago Castanho e Alex Atala, o número de turistas na pequena fábrica no Igarapé Combu não para de crescer. A travessia até lá é feita de barco a partir de Belém em 15 minutos. “A gente criou os grupos de visitação para atender essa demanda. E ainda tem muito cliente que chega aqui espontaneamente”. Um deles, acabara de sair levando todo o estoque de barrinhas 70%.

A Ilha do Combu é um paraíso amazônico, rico não só em cacau, mas também em açaí, cupuaçu, banana, pupunha e tantas outras espécies. Foi lá que Dona Nena nasceu e aprendeu a cuidar da floresta para poder tirar dela o próprio sustento. “O cacau sempre fez parte da minha vida. Meus pais produziam e vendiam para atravessadores, mas nunca beneficiaram o produto”. Em casa, tinham o costume de reservar parte das sementes de cacau para o “chocolate da família”, uma barrinha 100% orgânica, que por anos foi exclusividade dos Santos Costa.

Até que, em 2006, Dona Nena resolveu colocar o chocolate da família a venda. “Na verdade eu comecei como forma de melhorar a renda, trabalhando no tempo livre”, diz bem humorada, negando que tenha uma veia empreendedora. “Eu não sou empresária, eu sou produtora, com muito orgulho”. Da barrinha, e da criatividade de Dona Nena, foram surgindo outras receitas e, hoje, a linha conta com 21 produtos que vão desde bombons, brigadeiro, brigadeiro de pote, até o cacau em pó, triturado e líquido – como suco e licor.

“Esse aqui é meu maquinário”, aponta para as filhas que descascam as amêndoas do cacau. Além de ter um produto de ponta crescendo em seu quintal, o cuidado com o processo de produção torna Dona Nena única no mercado. Tudo é feito a mão. Primeiro a colheita, a seleção dos frutos e o corte para a extração das sementes. As amêndoas vão para o tipiti, utensílio indígena de palha usado para extrair o chamado “mel do cacau”, que vira licor. O cacau ainda passa por um processo de fermentação, secagem no sol e no forno antes de ser descascado, moído ou triturado.

São dias de trabalho e quilos de cacau para conseguir atender a tanta demanda. “Além do meu cunhado, que mora aqui do lado, fizemos dois parceiros fixos que nos fornecem cacau”. Dona Nena visitou propriedades até encontrar fornecedores que se adequam ao mesmo padrão de qualidade de sua produção. Ela paga R$ 1 a mais do preço de mercado para garantir a qualidade. E porque não aumentou a própria plantação? “É que isso não é uma plantação, é cacau nativo. Ele está todo interligado com a floresta. Eu não trabalho com monocultura”.

E nem pensa em trabalhar. Recusou propostas de grandes marcas que queriam industrializar o seu cacau. “Claro que eu penso em melhorar a estrutura, mas sempre mantendo a minha linha de produtos artesanais”. Atualmente, Dona Nena fornece produtos para os principais restaurantes de Belém, tem um distribuidor em São Paulo e também envia itens por correio para outras partes do Brasil. Sabe que, por meio de chefes de cozinha parceiros, os produtos já chegaram até a Europa e Estados Unidos. “É muita felicidade. Mas para mim o mais importante é ver a valorização do produtor. Porque geralmente o produto chega na mídia e quem menos lucra é o produtor”.

Dona Nena lembra dos tempos em que muitas pessoas da ilha tinham que ir até Belém em busca de emprego. “Ia trabalhar em casa de família, construção, mas agora a oportunidade está aqui”, diz. “Eu já não posso sair porque tenho trabalho mais que suficiente”. Além de coordenar a produção e as visitas de grupos, Dona Nena está fazendo o manejo em seu terreno, que é uma limpeza que permite que as árvores cresçam e recebam a luz do sol. Para dar conta de tanto trabalho, este ano pretende contratar funcionários. “Quero registrar todos, o cacau já tem uma imagem marginalizada, de trabalho escravo, infantil, e eu não quero isso aqui”.

Ao lado da casa da família, que até ano passado servia também de fábrica e estoque, agora é possível ver um charmoso chalé. O cheiro inconfundível do cacau leva o visitante até a loja com os produtos beneficiados da onde é possível ver, por uma janela de vidro, a cozinha recém construída. O espaço é a maior conquistas que o cacau proporcionou à Dona Nena e marca uma nova fase na carreira da produtora. “Meu sogro sempre falou que um dia cacau ia dar dinheiro. E eu acreditei nisso”.