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Mulheres na Ilha Jussara

Grupo de Mulheres da Ilha Jussara. Foto: Anderson Coelho/Agência PLANO

Com mulheres na liderança, famílias ribeirinhas dobram a produção de açaí na região do Furo do Maracujá, no Pará

Por Rosana Pinheiro, da agência PLANO

Aos 7 anos de idade, quando percorria com o pai os açaizais da Ilha Jussara, em Belém do Pará, Edna dos Anjos Nascimento, a Bezinha, não imaginava que um dia seria a coordenadora do Grupo de Mulheres da Ilha Jussara, que hoje lidera a gestão e produção de parte do açaí da região.

Em 2016, o grupo de 274 extrativistas monitorados pela EMATER, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará, produziu 6 mil toneladas de açaí na Ilha. O número é o dobro da produção de 2013 e resultado direto, de acordo com a empresa, da organização, planejamento e disciplina das mulheres que passaram a comandar o gerenciamento financeiro, de propriedade e a produção do fruto.

Bezinha foi a primeira mulher a participar de reuniões com bancos e instituições públicas que há mais de uma década começaram a investir na região. Viu uma oportunidade de ajudar o marido a proporcionar uma vida melhor a família. “O mato é onde está o açaí. O marido passava o dia no mato e a mulher esperando em casa. Nós mudamos isso.”, diz orgulhosa. Com a ajuda das esposas, agora os maridos voltam mais cedo para o lar e a produção foi otimizada.

O Grupo de Mulheres da Ilha Jussara começou há 5 anos e hoje conta com 16 integrantes. “A gente notou que, pelo nível de instrução das mulheres ser maior, elas conseguiram entender melhor as reuniões com bancos”, explica Lucival Chaves, técnico da EMATER que acompanha o grupo desde o início. Muitas delas se aproximaram do negócio do açaí quando se viram responsáveis pelos empréstimos contraídos pelos maridos. É que na hora de assinar os papéis, os bancos escolhiam as mulheres. “Elas são mais organizadas e mais empenhadas na gestão”, completa Lucival.

Também foram as mulheres, a partir da orientação de técnicos da EMATER, que instituíram o hábito do manejo, que é a limpeza da área de açaizal para que as árvores tenham espaço suficiente para crescer e gerar frutos saudáveis. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a produtividade do açaizal pode dobrar com essa prática. “Muitas amigas minhas, que passaram a ir para o mato e fizeram o manejo, tiveram mais lucro e conseguiram comprar novas áreas para a família. Porque o açaí é o nosso ouro preto”, conta Bezinha.

O manejo foi um dos pontos de conflito com os maridos. “Eles querem fazer uma limpeza mais geral e pronto. As mulheres são mais detalhistas”, conta o técnico Lucival. Mas no geral, as famílias trabalharam em conjunto. Logo os homens perceberam os benefícios de terem as mulheres no comando. “Eu não tenho conhecimento de um homem que não tenha ficado feliz. Até porque agora estão ganhando mais com a produção”, diz Lucival.

Para subir em uma árvore de açaí, Edna envolve os pés em uma fita de tecido, se encaixa no tronco e desliza por sete metros como se estivesse se alongando. Em pouco segundos desce com um cacho cheio de frutos em mãos. “Agora pega e faz a debulhada”. Na safra, a cada semana, a família colhe cerca de 100 kg de açaí. Essa quantidade pode mudar de família para família, de acordo com o número de membros trabalhando e do tamanho do terreno.

No dia 6 julho, por volta das 10h, sete mulheres estavam reunidas no quintal de Edna, de frente para uma vista paradisíaca do Rio Maracujá. Em pleno verão amazônico, quando os dias começam na madrugada, neste horário, os maridos já haviam vendido – do outro lado do rio – a produção semanal do açaí da Ilha. No tradicional Ver-o-Peso e em mercados menores, como o Veneza, em Belém, era possível negociar a rasa – cerca de 28 kg- por até R$ 220,00 naquela madrugada.

O dinheiro vai para o bolso delas. “A gente faz a compra do mês, separa as despesas da semana e guarda uma parte também”, explica Laura Toledo, 44 anos, que avalia a entrada das mulheres no processo de gerenciamento como “a melhor coisa que aconteceu”. Silvana Batista, 39 anos, apoia a amiga: “Construí muitas coisas quando me aproximei do negócio e comecei a falar para o meu marido o que eu queria fazer com o dinheiro”, conta. Quando se trata de dinheiro, a palavra de ordem não é necessariamente economizar. “Eu diria planejar. A gente quer um barco, um celular? Tem que botar na cabeça deles para se planejar”, completa Silvana.

Para facilitar a vinda de técnicos de órgãos públicos que auxiliam no planejamento das famílias, as mulheres criaram um caixinha da Ilha Jussara. Cada uma contribui com uma quantia de R$ 5 por mês e sempre que precisam podem pagar por transporte para trazer as visitas. O almoço fica por conta de cada uma. Na visita que acompanhamos de Lucival Chaves, da EMATER, filhote, farinha, arroz, macarrão, salada e, claro, açaí, foram postos à mesa.

Entre uma garfada e outra, Lucival atendia às dúvidas de quem queria saber mais sobre os empréstimos recentes com os bancos e os que ainda estão por vir. “A maior dificuldade é o prazo que o banco dá”, reclama Bezinha que gostaria de pagar a dívida do empréstimo em um intervalo de 2 anos e não 5, como oferecem as instituições. “Você vê a preocupação delas em pagar o empréstimo, o homem não tem essa postura pró ativa”, conta Lucival, que diz se sentir mais seguro lidando com as mulheres.

“É o que eu digo, do lado de um grande homem sempre tem uma grande mulher”. E o grupo repete em coro: “Do lado, seu Lucival. Isso mesmo, do lado”.

A equipe viajou com o apoio do hotel Ibis Belém Aeroporto e da SETUR/PA.