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Dólar dispara mais de 3% com temor sobre PEC de Lula ofuscando alívio externo

Pessoa segura notas de dólar

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar continuava em disparada nesta quinta-feira, mesmo diante do alívio internacional após a divulgação de dados de inflação norte-americanos melhores do que o esperado, com temores domésticos sobre a PEC de Transição almejada pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para permitir gastos extra-teto somando-se à leitura elevada do IPCA de outubro.

Às 11:51 (de Brasília), o dólar à vista avançava 3,02%, a 5,3412 reais na venda, rondando os picos do dia e os patamares intradiários mais altos desde 31 de outubro.

O real tinha, de longe, o pior desempenho entre uma cesta de moedas globais nesta manhã.

Na B3, às 11:51 (de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento subia 2,93%, a 5,3585 reais.

O dólar chegou a moderar seus ganhos frente ao real imediatamente após o Departamento do Trabalho dos EUA ter informado que o preços ao consumidor norte-americano aumentaram menos do que o esperado em outubro, em linha com alívio internacional de temores de uma postura de política monetária muito agressiva por parte do Federal Reserve.

No entanto, preocupações com descontrole fiscal e retomada da pressão inflacionária no Brasil ofuscavam completamente a cena externa, e o dólar saltava ante o real, em contraste com a baixa de mais de 1% do índice que compara a divisa norte-americana a seis rivais fortes.

Em sua primeira visita a Brasília depois das eleições, Lula se reuniu na quarta-feira com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em duas visitas institucionais em que se negociou o caminho para aprovação da PEC da Transição necessária para gastos como a manutenção do Bolsa Família em 600 reais.

"Os sinais indicam que o espírito de construção da PEC de Transição estão muito voltados a novos gastos públicos. Por ora, não parece haver um caminho de onde virão estes recursos e qual será o caminho de ajuste de longo-prazo", escreveu Dan Kawa, CIO da TAG Investimentos.

"Os sinais são péssimos. O mercado deveria sentir mais forte no curto prazo. O impacto mais claro me parece ser nos juros e na parte longa a curva. É ruim para o dólar e ações sensíveis a juros na bolsa."

Em discurso nesta manhã, Lula voltou a criticar o teto de gastos do Brasil e a defender gastos sociais em benefício da população mais vulnerável, aumentando temores de investidores sobre descontrole nas despesas durante o governo do petista.

Investidores também digeriam nesta quinta-feira a notícia de que o IPCA passou a subir 0,59% em outubro, mais do que o esperado e deixando para trás três meses seguidos de deflação.

"Esses dados de inflação um pouco mais pressionados, em conjunto com o novo governo lançando uma PEC de transição que busca furar o teto de gastos, corrobora um cenário de descontrole fiscal e de uma inflação que pode voltar a ficar mais pressionada", disse à Reuters Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital.

Rafaela Vitoria, economista-chefe do Banco Inter, tem visão parecida. "A alta de outubro serve de alerta de que a inflação ainda não está totalmente controlada e, para a política monetária ter efeito mais eficiente, é importante ser seguida de um fiscal também mais contido", escreveu ela em publicação no Twitter.