Mente Aberta
  • Toca pra 2016

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    Será que a esperança é exclusiva da raça humana? Cães idosos têm fé em recuperar forças? Pássaros engaiolados acreditam que um dia seus donos devolverão suas asas? Difícil saber, pois não falamos a linguagem dos bichos, nem eles a nossa. A esperança também faz parte da frase eleita a dama dos clichês. Aquela que diz ser ela a última que morre. Então fiz uma lista de esperanças para este Mente Aberta de virada de ano. Compartilho:

    1 Amor
    Com todos os seres vivos. Com os objetos emocionais também. Por exemplo, com aquela fotografia em que seu bisavó ou bisavó aparecem no cantinho. Preserve as raízes e a árvore crescerá.

    2 Amor
    Não apenas com o que imaginamos no futuro. Mas com o passado pessoal e coletivo. Homenageie o que foi bom. Relembre os fatos negativos para não repeti-los. Os mortos não desaparecem. Os mortos queridos caminham ao nosso lado. Não os espante.

    3 Amor
    Ao seu trabalho. Ele não é só meio de ganhar a vida. É fundamentalmente colaboração. Não importam o título ou ofício. Há

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  • O luto das coisas

    Li discreta nota no jornal noticiando que uma grande, pioneira, qualificada, paulistana locadora de DVDs fechará as portas. Senti uma estocadinha no peito. Não pelo fato de mais uma empresa fechar. Isso é comum em épocas de vacas magras. A dorzinha veio pela emoção. Parece que o DVD já era. Seu antecessor, o VHS, já foi faz tempo.

    Os que são muito jovens talvez não se importem com a morte das coisas. Talvez experimentem lufadas de nostalgia com seus brinquedos de infância. E só. A garotada tem futuro - terra prometida das novidades. Eu pela lógica da idade tenho bem mais passado. Minha mochila vem carregada de objetos findos.

    hoje entendo a saudade dos meus pais em relação aos bondes. Cheguei a andar neles na infância. Quando desapareceram achei natural. A rua ficava mais transitável para ônibus e carros. Agora compreendo que minha indiferença à morte dos bondes teve a ver com a falta da memória afetiva.

    Foi diferente com o passamento do vinil. Nunca esquecerei meu primeiro compacto

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  • Crônica de Natal

    Nunca acreditei em Papai Noel. Pois papai Marcus e mamãe Etienete sempre deixaram claro serem eles que iam na loja comprar nossos presentes. Também costumavam declarar que a situação estava ruim, daí os presentes virem modestos. O que não significava que não fossem encantadores. Na primeira infância amei cada presente que recebi. Em particular recordo de uma baratinha de lata (carro de corrida da época) e da miniatura de uma máquina de escrever.

    A falta de crença no Papai Noel poupou a mim e a meus irmãos da desilusão de sua não existência. Nesse quesito agradeço aos meus pais. Se nos privaram de uma fantasia, também nos protegeram da consequente frustração.

    É fato que os Natais do final da década de 1950 eram muito diferentes dos aturais. Não havia brinquedos em padarias, farmácias, lojinhas no metrô. Por sinal nem tinha metrô. A televisão, ainda incipiente, era tímida nos comerciais veiculados ao vivo. O foco publicitário estava mais nas mamães do que nos filhos.

    Mesmo a figura do

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  • Tocar o sabor

    Nasci na rua Bambina, no bairro carioca de Botafogo. Bambina, todos sabem, é menina em italiano. Aprecio a sonoridade dessa palavra e sua proximidade com bandolim, bambolê, bamba. Mamãe quase me teve dentro do elevador do hospital, segundo relato do meu pai que excelente contador de histórias era um exagerador. Ainda de acordo com ele, uma enfermeira afirmou: Em noites de lua cheia as crianças têm pressa em nascer.

    O hospital da rua Bambina existe até hoje, chama-se Samaritano. Palavra que designa aquele que é bom, caridoso, cuidador. Quarenta anos depois do meu apressado nascimento precisei tirar um pólipo da bexiga. Por suposto, pólipo tem som e significado desagradáveis. Já o órgão bexiga remete a algo lúdico, infantil, festivo.

    A graça, se há, é que a retirada da excrescência foi no Hospital Samaritano, dessa vez o paulistano, na Conselheiro Brotero, Higienópolis. Achei que morreria: Nasci no hospital Samaritano, nada mais coerente do que morrer no hospital do mesmo nome. Você com

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  • Com que roupa eu sou?

    Na minha época de garota, mamãe e outras mulheres da família repreendiam meu jeito nem aí de me vestir. Tudo que eu queria eram roupas que não tolhessem meus movimentos e sapatos que me permitissem deslizar. Na verdade tinha inveja dos garotos. Eles vestiam qualquer coisa e saiam para a rua. Voltavam sujos. Coisa de meninos, os adultos diziam. Já quando eu aprecia com roupa ou cara sujas, tinha que ouvir: Nem parece uma menina!

    Com a chegada da adolescência as cobranças recrudesceram. Afinal eu me tornara uma mocinha. Mocinhas precisam se enfeitar. Mas eu odiava presilhas, pulseiras, brincos, sutiãs e saltos altos. Tudo que eu queria eram trajes que me deixassem confortável para subir e descer dos lotações, saltar poças d’água, entrar e sair do mar.

    Mamãe sempre foi arrumadíssima. Até hoje - aos 82 anos e com problemas de memória - combina a cor do brinco com a sandália da hora. Então ela desesperava com o patinho desarrumado que veio na sua cesta. Muitas vezes me perguntou: Você não tem

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  • Agora falando sério

    Acho que estamos maduros para concluir que o fla-flu entre livro impresso e livro digital acabou no 0 x 0. As grandes livrarias exibem montanhas de livros com edições cada vez mais vistosas. O livros digitais seguem ganhando adeptos. Vida que rola. Há espaço para todo mundo, cada vez mais leitores transitam com naturalidade entre páginas impressas e páginas eletrônicas.

    É certo que muitas crises floresceram. Pequenas livrarias não aguentaram o tranco. Até mesmo livrarias tradicionalíssimas fecharam as portas. Não só por conta da venda de livros pela internet, mas também pela força das grandes. Estas conseguem fazer descontos e atrair o público para espaços que oferecem atrações além-livro. Cafeterias elegantes, poltronas convidativas, iluminações inspiradas nos MacDonald’s. Mais do que lojas de livros, elas são uma “experiência” como está em voga dizer.

    Também houve transformações radicais na relação dos escritores iniciantes com as editoras. Vinte anos atrás ou você passava na estreita

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  • O presente

    Minha irmã Lucíola pertence à legião dos caçadores de caçambas. Também é do clube dos observadores de conteúdos destinados à reciclagem. Ela diz que as pessoas costumam jogar fora coisas interessantíssimas. Na minha opinião às vezes ela erra feio ao se apaixonar por mesas bambas, cadeiras com pés de ferrugem, abajures improváveis. Já a apelidei Madre Tereza de Calcutá dos Objetos, pois minha irmã acredita que as coisas sofrem com a rejeição e merecem um novo acolhimento. Imagina se livrar de uma imagem de São Jorge só porque ele perdeu a cabeça, ela se indignou certa vez.

    Outro dia, de supetão, Lucíola perguntou por uma palavra que eu tivesse dúvida do significado. Puxei pela memória e lá veio: ambrosia. Ela foi para o quarto e voltou segurando 4 robustos volumes do Dicionário LELLO Universal Luso-Brasileiro, organizado pelo português João Grave (1872-1934) e pelo brasileiro Coelho Neto (1864-1934). Editado e impresso na cidade do Porto, Portugal. Procure aí, ela disse. E orgulhosa

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  • Posso viver sem carimbos

    Em artigo de Marcos Grinspum Ferraz sobre a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), o também arquiteto André Vainer diz o seguinte: A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”. Verdade. Basta olhar para o Masp na avenida Paulista e para o Solar do Unhão em Salvador. No primeiro, Lina projetou uma ousadia de concreto e vidro. No segundo, restaurou respeitando materiais da cultura e tradição. É dela também o Sesc-Pompeia - uma experiência de convívio e conexão pessoa-espaço.

    Parece evidente que a liberdade de Lina foi consequência de não fechar fileiras. Não flertar com certezas que excluem. Ela não era da turma do só concreto armado, nem da turma do só pedra e barro. Concordo com a postura. Toda vez que entramos num grupo de pensamento fechado, qualquer ismo, ficamos presos e rivalizamos com outras propostas.

    Tiro o exemplo por mim. No final dos anos 1970, fiz parte do grupo estudantil Liberdade & Luta de inspiração trotskista. Na USP havia

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  • A Aids ainda ronda

    Envelhecer traz algumas vantagens. Entre elas, acompanhar os fios de fatos e emoções. De forma direta: recordar. Foi o que fiz na última terça-feira, primeiro de dezembro - Dia Mundial de Luta contra a Aids. Luta que engloba prevenção, tratamento, solidariedade.

    Bateu na memória o início da epidemia no começo da década de 1980. Falava-se de terrível doença que dizimava as defesas do corpo humano vinda pelo vírus HIV, cuja transmissão se dá pelo sangue e líquidos sexuais. Ser uma doença ligada ao sexo explodiu no imaginário das pessoas.

    A propagação da Aids agudizou questões de comportamentos, religiões, moralidades, censuras. Mas fundamentalmente foi o medo que se espalhou. A imensa maioria de nós não quer findar. A Aids era então beijo para a morte.

    Perdi alguns amigos e muitos conhecidos. Gente jovem. O primeiro que se foi era profissional do teatro. Escrevia peças, atuava, influenciava. Morreu em quarto isolado no paulistano Instituto Emílio Ribas. Depois veio uma cascata de

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  • Carolina do Brasil

    Antes da internet com seus blogs, redes sociais, aplicativos era extremamente difícil expressar para o público a própria voz. As pessoas tinham o que dizer, mas não havia canais simples, baratos e democráticos. Daí o pessoal fora da cereja econômica, social, cultural tinha mínima chance de ser ouvido. Em tal configuração editores, colunistas e repórteres detinham o privilégio de peneirar o que aparecia.

    Em 1958 o jornalista Audálio Dantas deu grande contribuição às letras pátrias ao revelar um talento literário escondido na favela paulistana do Canindé - arredores do Estádio da Portuguesa. Audálio estava escrevendo reportagem sobre a favela às margens do rio Tietê, quando ouviu uma mulher repreender uns marmanjos brincando no parquinho: Se vocês não caírem fora, vou botá-los no meu livro. A palavra livro acendeu um farol na cabeça do repórter.

    Ele foi até o barraco da moradora e encontrou um mar de manuscritos. Catadora de papel, ela separava revistas e cadernos velhos para escrever nos

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(25 histórias)

Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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