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Linhas de teleférico revolucionam a mobilidade urbana na Bolívia

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(Agência Plano)

Por Rosana Pinheiro/Agência PLANO

“Viemos passear. Vamos fazer o trajeto de ida e volta para ver a cidade lá de cima”. A comerciante Mercedez Vito, acompanhada pelas duas filhas adolescentes, aguardava na fila como se fosse da atração de um parque de diversões. Não pretendia descer do teleférico após completar o trajeto que começa no centro de La Paz, na estação Jach’a Qhathu, da linha vermelha, e termina em El Alto, a 4000 metros de altitude. Com a câmera em punho, preparava-se para apreciar as montanhas que cercam a cidade mais populosa da Bolívia e sede administrativa do governo federal.

O teleférico urbano foi a solução encontrada pelo governo boliviano para resolver o problema de mobilidade em La Paz. A cidade nasceu dentro de um vale profundo e é cercada por montanhas que compõem a Cordilheira dos Andes. Só a sua geografia já representava um desafio, agravado pelas altas taxas de congestionamento que, ainda hoje, incomodam seus moradores. Após a inauguração das primeiras linhas do novo meio de transporte, no primeiro semestre de 2014, trajetos entre La Paz e a cidade de El Alto, na região metropolitana, antes feitos em, no mínimo, 40 minutos, passaram a ser feitos em 10.

“É um serviço excelente, que a cidade precisava principalmente por causa dos grandes congestionamentos”, conta Isven Queiroz, que utiliza o serviço três vezes por semana para trabalhar. Naquele domingo, o destino era a feira de El Alto, onde é possível encontrar desde roupas, componentes elétricos, até cimento e outros materiais para construção. Quarta maior cidade do país, localizada na zona metropolitana de La Paz, El Alto concentra bolivianos mais pobres, que chegam do interior para tentar a sorte na metrópole. A nova ligação gerou oportunidades profissionais e de entretenimento aos quase 2 milhões de “alteños”, como são conhecidos os moradores de lá.

De 2014 até dezembro de 2017, segundo informações da empresa Mi Teleférico, responsável pela implementação e operação do projeto, 70 milhões de pessoas utilizaram as sete linhas – vermelha, amarela, verde, azul, laranja, branca e celeste. Mas as cores da bandeira boliviana não são suficientes para a ambição do primeiro presidente de etnia indígena a governar o país. No dia 8 de abril deste ano, foi anunciado o início das obras da segunda fase, que inclui mais 6 linhas: azul, laranja, morada, branca, celeste e café.

Das 5h00 às 22h00, o serviço funciona sem intervalos, com cabines partindo a cada 12 segundos das estações. Cada uma delas comporta, confortavelmente, 10 pessoas, que têm uma vista privilegiada da cidade e das montanhas que a cercam. Ao fim das obras, 90 zonas, incluindo La Paz e El Alto, estarão conectadas. César Dockweiler, diretor da Mi Teleferico, diz que a ideia é promover um “sistema que transporta todos, sem distinção de nível econômico” e que abra novas possibilidades a quem antes não tinha acesso a alguns pontos das cidades.

Na fila, acompanhamos durante 20 minutos uma multidão satisfeita, que testemunhava a própria ascensão. O teleférico urbano mais alto do mundo é também a obra mais imponente da administração de Evo Morales, que chegou a presidência em 2006 e foi reeleito no final de 2014 para o seu terceiro mandato. A estatização do gás natural, programas sociais e o controle ortodoxo da economia fizeram da Bolívia um dos países com maiores taxas de crescimento da América Latina nos últimos anos.

Com a mobilidade, a cidade de La Paz enfrenta outro desafio: a ocupação do espaço público por quem antes não conseguia chegar a esses espaços. Postagens em redes sociais mostram moradores da zona sul da cidade incomodados com a presença de “visitantes de El Alto” em bairros residenciais de classe média alta. “Que pena…no dia 1 de janeiro o MegaCenter estava um caos, havia gente sentada no chão…os banheiros fediam, sujeira para todos lado”, dizia uma postagem no Facebook, fazendo referência a um complexo de salas de cinema. Uma série de fotos foram publicadas, mostrando bolivianos com roupas tradicionais a caminho do cinema, após desembarcarem na linha verde do teleférico. As legendas insinuavam que os alteños estavam invadindo a região nobre de La Paz.

A polêmica ficou nas redes. Os indígenas continuam nas ruas e o teleférico já pode ser considerado um dos empreendimentos de maior sucesso do país. Giancarla Isabela, moradora de La Paz, que pagou 3 bls – cerca de R$ 1,30 – para ir a feira de El Alto com o teleférico, revela, de dentro de uma cabine da linha vermelha, que os bolivianos ainda tem mais sonhos a conquistar. “Sentimos que estamos voando em um avião. Porque nunca voamos em um avião”.

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